quinta-feira, 20 de março de 2025

 Carta ao director de PUBLICO,  18-'03-25

Um Museu de Salazar e do salazarismo

Volta a surgir a controvérsia sobre a criação de um museu dedicado ao ditador português e logicamente na sua terra natal.

É uma lacuna na cultura portuguesa não existir ainda um museu dedicado a um período tão significativo da nossa História que já tem suficiente distanciamento - 50 anos. 

 Para quem não me conhece posso garantir que não tenho a mínima simpatia ou afinidade com a ditadura sob a qual vivi contrariado uma boa parte da minha vida; mas até por isso entendo que deve ser dada informação histórica aos portugueses, sobretudo aos mais jovens que não viveram essa época nefasta, mas ouvem hoje relatos facciosos de alguns saudosistas e podem acreditar nessas louvaminhas.

Posso informar que existe em Gori.  na Geórgia, o Museu de Estaline, natural daquela pequena cidade; trata-se de uma instituição meramente histórica, sem nada de apologético, mas importante porque trata da vida duma personagem crucial da História Mundial do seculo XX. Até a pequena casa térrea onde ele nasceu está preservada. No final da visita entra-se numa sala onde se mostram fotografias de diversas atrocidades mandadas fazer pelo ditador soviético, sem comentários.

Em Portugal há a obrigação cultural e histórica de apresentar a vida de Salazar, na sua terra natal, sem apologia, porque um período tão longo da História de Portugal - quase 50 anos do século XX- não pode ser ignorado. São precisos historiadores idóneos, e Fernando Rosas será um deles certamente, para que o Museu de Salazar e do salazarismo fique como marco do nosso percurso   cultural e histórico do seculo XX.

Já agora, passa-se o mesmo com um Museu dos Descobrimentos, falta a coragem, a decisão e a sabedoria para colocar historicamente o nosso passado das navegações e do colonialismo que praticámos adequado á época em que as navegações tiveram lugar, fruto do nosso envolvimento com o Renascimento. Mas essa é outra estória."

quarta-feira, 19 de março de 2025

 Continuando

Progressivamente foi sendo entendido por um publico mais vasto que a Terra é um sistema e que se afectarmos drasticamente um elo do sistema os demais entram a funcionar mal - responsabilidade do qe se passa n globo é de todos , cada um de nós interferindo isoladamente ou em grupo. Planificar a economia faz cada vez mais sentido: a formação dum bloco como a União Europeia deverá ter como um dos principais  objectivo implementar um planeamento global, equilibrando a componente com que cada Estado membro pode contribuir.

Dois economistas com sentido ecológico, William Ramsey e Claude Anderson em 1974 proclamaram que a planificação deve desempenhar uma função fundamental na preservação do Ambiente para, dessa forma preventiva se compensarem as falhas do sistema de mercado livre.

Como os dois investigadores defendiam, a planificação da economia não  funciona se não for aplicada globalmente; de nada vale a uma nação a sua planificação isolada - por maior e mais decisiva que seja a sua intervenção no peso da economia global - porque aplicada a um só país fica desligado do que é processado nos outros países do continente ou do planeta .E aqueles autores deixam bem explicito: "O mundo que vamos ter dependerá  dos planos que fizermos agora. Se não formularmos nenhum, é muito possível que também não tenhamos mundo  nenhum".

Esta necessidade de uma economia de mercado social começa a fazer o seu caminho e, como sabemos, continua a ser contestada pelos liberalistas desde Friedman e a sua Escola de Chicago, que outras coisas não lhes interessam  senão o máximo lucro no menor tempo possível - a verdade é que estamos ciclicamente a caminhar nos mesmos sentidos que levam à convulsão social.

O presente tempo protagonizado por Trump e a camarilha que o rodeia com a suas cegueira fanática pelo negócio e pelo lucro, outra coisas não é senão o sentido extremo a que o liberalismo desenfreado nos leva. Perdem-se os valores civilizacionais que são universais mas que a Europa sempre (quase sempre...) cultivou, trocando-os por fortunas e poderio assumido selvaticamente sobre as comunidades menos poderosas e desse modo espezinhadas friamente.  

Retomando  as reflexões iniciais,  foi na década de setenta do século XX que surgiram as primeiras grandes reacções ao caminho de desastre anunciado que a economia de mercado livre, por um lado,  e a economia estatizada por outro, estavam a conduzir a vida do planeta.

Porque se a economia liberal era inimiga de uma gestão conscienciosa  dos recursos da Biosfera, a economia estatizada como a da China e da URSS estava a cavar ainda mais profundamente o desastre ecológico mundial.

O maior atentado ambiental perpetrado no século XX foi a destruição quase total do Mar de Aral pela URSS.

continuará...









terça-feira, 18 de março de 2025

 Continuando neste tempo...

O crescimento  económico continua baseado no mercado liberal desregulado e nas ideologias produtivistas que apenas vêem o lucro imediato ou a curto prazo e por isso constituem a maior ameaça ao respeito pelos limites do crescimento .

Desde há várias décadas, desde meados do século XX, que investigadores e pensadores de várias nacionalidades postulam as suas preocupações  com o futuro se o crescimento económico não for contido dentro dos limites que garantam a sustentabilidade da Biosfera e dos seus recursos.

Paul Samuelson, considerado o pai da economia moderna, foi um neokeinesiano e depois de várias obras emblemáticas escreveu "Economics," várias vezes reeditado e traduzido, denunciando os processos intensivos da indústria e do urbanismo, com evidentes más consequências para o Ambiente. Foi ele um dos defensores da ideia de que se deixasse de usar o PIB como medida do bem estar económico, pois ao valor do PIB deveria ser acrescentado o custo social e ambiental do produtivismo, criando então o conceito de PBL - Bem Estar Liquido. e avisava então :"o smog e a poluição do ar podem chegar a alterar o clima, a contaminação das águas provocada pelos despejos, os dejectos industriais, os fertilizantes e os detergentes, até o calor produzido pelas centrais termoeléctricas -  nucleares ou não- , tudo misso transformou a nossa herança terrestre num campo de desperdícios".

Repare-se como estes as se estão na verdade a verificar.

Não posso deixar de citar um curioso facto que se encaixa neste tipo de reflexões: na segunda vez que fui ao Butan, o icónico pequeno país dos Himalaias, o Rei determinou que no seu país não figurava o PIB mas sim o PFB - Produto da Felicidade Bruta do povo.

Em 1948 já a UICN, no âmbito da UNESCO, propunha a distinção entre preservação da Natureza e conservação das Natureza; preservar é uma função estática, museográfica, enquanto  conservar é gerir. Percebeu-se  que os ecossistemas e a biodiversidade não podem, simplesmente ser preservados, antes têm que ser-climácico.

Nos anos 60 do século XX James Lovelock  concebeu a teoria  de Gaia,  a Terra Mãe, como um ser vivo que se auto-regula se nós não interferirmos demasiado nos seus ciclos energéticos e climáticos: o clima auto-regula-se  e só a sociedade industrial o perturba- teoria polémica mas que generalizou os conceitos de conservação dos ecossistemas que hoje são aceites  como indiscutíveis. Indiscutíveis por quem não é serio intelectualmente  ou agente de negócios a qualquer preço.

Como divertimento pode lembrar-se a história do Astérix e do Obélix e do chefe da aldeia Abraracorcix, que tinha  muito medo que o céu lhe caísse em cabeça, mas dizia sempre : "hoje ainda não é a véspera desse dia", portanto vamos lá tratar da vidinha...


Vamos continuando nestas reflexões...





domingo, 16 de março de 2025

 Tempo de crise

Eu escrevo estas pequenas crónicas mais para ficarem nom0 memória, mas nem dá vontade de escrever, tal é a indigência deste tempo que vivemos.

Os nossos politicos estão a desbaratar a democracia, e embora na vivência democrática haja espaço para os ataques e os malabarismos, há níveis de decência que são apanágio da ética republicana  que não devem ser ultrapassados e que muitos invocam mas,  infelizmente, são mais os que a atropelam.

Por cá,  este Montenegro é o típico chico-esperto, cínico e parlapatão, com cara  de sonso mas, como dizia a minha velha tia beirã, os sonsos são os piores. Depois da trapalhada em que se envolveu - e pelo "gelo que flutua" adivinha-se o iceberg que está submerso...- tem a lata de vir dizer que a queda do Governo se deve à oposição não aceitar o sucesso que o seu governo tem apresentado aos portugueses.

Temos depois um Presidente da República que perdeu já a sua influência, que era a intervenção pela palavra- falou demais durante estes anos todos e agora fala de menos. ´

É evidente que ele, sem publicidade, deveria ter chamado a Belém os dois lideres do PS e do PSD e fazê-los chegar a um entendimento.

É também evidente que Montenegro quis a toda a força acabar com o actual Governo, convencido que a polémica sobre a sua falta de ética irá morrer aqui - erro fatal, vai servir de motivo de toda a campanha eleitoral. Ele sabia que o PS tinha avisado que não apoiaria  uma declaração de confiança e mesmo assim, em vez de aceitar uma CPI. atirou com aquela macacada de aceitar uma CPI de 15 dias,   depois já era de um mês, quando todos sabem que uma CPI nunca leva menos de noventa dias - e é se for...

Custa a entender que o PSD se deixe arrastar para este caldo de baixa política. com tantos dos seus rapazes envolvidos em negócios que colidem com as funções governamentais. E devia este PSD ter o pudor de não invocar Sà Carneiro  e os fundadores do Partido.

Eu nunca me relacionei com Sá Carneiro, mas dei-me muito bem com Magalhães Mota, porque era ele que ia sempre, pelo PSD, nas viagens e visitas do 4º e do 6º Governos. Alem disso eu trabalhava fora das horas de serviço no atelier do GRT, na Rua Filipe Folque e, mesmo em frente, penso que era o seu escritório;  depois encontrávamo-nos no café  que existia - e ainda existe- no rés-do-chão do nosso prédio. E tínhamos mais um motivo de conversa - ambos fumávamos cachimbo e era motivo para conversas "especializadas"... Era um social democrata consciente e militante, não tinha nada a ver com  comportamentos videirinhos de tantos os psds de agora. Com pessoas como Magalhães Mota vivo, tal como com Sá Borges e outros fundadores, o PSD seria outra coisa.

Triste  tempo este em que vivemos, com o mundo a ficar baralhado e expectante com as diatribes que o Trump faz por todo o lado. Nem falo mais disso  agora.

PS- É execrável o que está a acontecer no nosso País.

Há Câmaras  Municipais, como a de Loures   (socialista e apoiada publicamente por António Costa) que estão a derrubar casas ilegais, pondo as famílias na rua sem procurarem saber se têm outro alojamento, e depois o Estado vem tirar as crianças aos pais por estes não terem condições dignas para as acolher!! 

Já  se viu maior desaforo?!!







sexta-feira, 7 de março de 2025

 Fantochadas

Um cronista  de um jornal acabou de escrever: "Porventura o que mais surpreende no comportamento do Luis Montenegro dos últimos  dez dias  é a incompreensão face  ao que lhe está a acontecer" - como é que se  pode pensar     que o citado não compreende?! Dar-lhe o benefício da dúvida?

Compreende muito bem mas "faz-se de morto" - como é que um  advogado, mesmo que seja fracote, não sabia o que estava a fazer e não sabia a aldrabice em que se estava a atolar?

A falta de noção dos valores essenciais da civilização e da cultura, que têm sido os valores que cultivamos no pós 25 de Abril 74, é a marca deste tempo em que estamos a viver, e havemos de  dar graças aos deuses se não nos cair em cima uma cambada de políticos populistas, especuladores, veículos das autocracias mais imorais em ternos de vida colectiva.

Continuem a fazer da política esta troca de passa-culpas (o último governo  de A. Costa foi um caso exemplar pela  negativa) e maus tempos vão chegar,  não querendo fazer de Cassandra...

terça-feira, 4 de março de 2025

 Intervalo

Não pode deixar de nos preocupar a evolução do tempo em que vivemos.

Desde o famigerado Trump e a  quadrilha que o rodeia, no país mais importante do mundo,  até esta parcela de território à beira-mar implantada, é chocante a troca dos valores civilizacionais pelo negócio.

É um tempo terrível este em que, de um dia para o outro, se descobrem ligações espúrias entre pessoas que se elevam acima dos pobres mortais.

Trump descobre-se agora, pelo menos para os menos informados,  foi  "servidor"  de Putin que o ajudou a sobreviver em maus momentos- e agora troca a defesa da liberdade de um  país invadido por um autocrata perigoso e maníaco pelo negócio em que ele e os seus amigos vão ganhar fortunas. E Trump tem ao dispor talvez as  maiores forças armadas do mundo  ( em que situação se devem encontrar os principais chefes  militares?).

Por cá um primeiro ministro está a exercer o cargo e a receber  "mesadas" de empresas  privadas...

 Ao que nós já chegámos!

Tal está a moenga, hem?

segunda-feira, 3 de março de 2025

 Este tempo em que vivemos

A  vida do mundo habitado pelos seres  humanos realiza-se por ciclos  do seu comportamento colectivo, mais ou menos  longos consoante  a civilização aumenta em conhecimentos, em tecnologias e em desenvolvimento de ideias ; houve tempo, no início, em que os homens acompanhavam os ciclos que a Natureza lhes impunha porque ainda eram parte integrante e integrada dessa Natureza.

Mas à medida que se foi consolidando o domínio do ser humano sobre os ecossistemas que o rodeavam, as  iniciativas e actividades das diferentes culturas foram-se distanciando da base natural. Depois a perspectiva de cada cultura sobre o meio  também se foi diversificando  - e as religiões  iniciais traduzem essa diversidade, nitidamente entre as ideias dos homens do que chamamos Ocidente e daqueles a que colocamos no Oriente ( visão que vale para nós que somos ocidentais).

No Génesis, da Bíblia judaico-cristã,  está lá bem explicitado que "enchei a Terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre  os animais que se arrastam na terra". Depois o homem cometeu o pecado original que foi ter comido o fruto proibido do conhecimento  e daí em diante rompeu as suas ligações ecossistémicas até ter aprendido à sua custa que deve servir-se da tecnologia de que dispõe em cada tempo histórico para reconstruir ecossistemas de substituição.

No Oriente Buda ensinava que todos os seres vivos estejam em segurança e paz, os seres  fortes e os seres fracos, grandes ou pequenos visíveis ou invisíveis, próximos ou distantes, já nascidos ou ainda por nascer. 

Daí que também aqui  o homem tenha aprendido, mas  mais cedo, a usar a Natureza sem a hostilizar.

São duas mentalidades opostas que traduziam a diferença  básica  do comportamento entre os seres humanos e o meio - no entanto,  e apesar dessas diferenças de mentalidade, um facto ressalta: o comportamento dos seres humanos entre si, as suas  relações, repetem-se ao longo dos milénios.

continua