Carta ao director de PUBLICO, 18-'03-25
Um Museu de Salazar e do salazarismo
Volta a surgir a controvérsia sobre a criação de um museu
dedicado ao ditador português e logicamente na sua terra natal.
É uma lacuna na cultura portuguesa não existir ainda um
museu dedicado a um período tão significativo da nossa História que já tem
suficiente distanciamento - 50 anos.
Para quem não me conhece posso garantir que não tenho
a mínima simpatia ou afinidade com a ditadura sob a qual vivi contrariado uma
boa parte da minha vida; mas até por isso entendo que deve ser dada informação
histórica aos portugueses, sobretudo aos mais jovens que não viveram essa época
nefasta, mas ouvem hoje relatos facciosos de alguns saudosistas e podem
acreditar nessas louvaminhas.
Posso informar que existe em Gori. na Geórgia, o Museu
de Estaline, natural daquela pequena cidade; trata-se de uma instituição
meramente histórica, sem nada de apologético, mas importante porque trata da
vida duma personagem crucial da História Mundial do seculo XX. Até a pequena
casa térrea onde ele nasceu está preservada. No final da visita entra-se
numa sala onde se mostram fotografias de diversas atrocidades mandadas fazer
pelo ditador soviético, sem comentários.
Em Portugal há a obrigação cultural e histórica de
apresentar a vida de Salazar, na sua terra natal, sem apologia, porque um
período tão longo da História de Portugal - quase 50 anos do século XX- não
pode ser ignorado. São precisos historiadores idóneos, e Fernando Rosas será um
deles certamente, para que o Museu de Salazar e do salazarismo fique como marco
do nosso percurso cultural e histórico do seculo XX.
Já agora, passa-se o mesmo com um Museu dos
Descobrimentos, falta a coragem, a decisão e a sabedoria para colocar historicamente
o nosso passado das navegações e do colonialismo que praticámos adequado á
época em que as navegações tiveram lugar, fruto do nosso envolvimento com o
Renascimento. Mas essa é outra estória."