quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 O que vai pelo mundo e por cá

Por mais incrível que pareça, vivendo numa região turística portuguesa, na Europa e não num qualquer remoto lugar sub-sahariano, voltei a estar uns dias sem internet- a eficiente e "competente" Altice acha que esta zona de fim de rede, onde moram poucos habitantes ( poucos cliente) não merece investimento. Em menos de um mês sucede a mesma coisa - em Novembro estive 10 dias sem internet e  nem vou repetir as trocas de comunicação que então se deram ... Retomemos então a normalidade enquanto a rede aguenta.
1 - 250 anos - 16 de Dezembro, possivelmente, e há 250 anos, em Bona,  nasceu Beethoven, o maior génio  de todos os tempos na música, a música por sua vez mais melódica sem ser  delicodoce e viril e poderosa sem ser  ensurdecedora que já se escreveu. Torna-se quase incompreensível que a maior parte da sua obra, nomeadamente as grandes Sinfonias tenha sido escrita quando já estava surdo, A maravilhosa e empolgante 9ª Sinfonia!- Beethoven nunca a terá ouvido,  a surdez já era quase total.
Quer dizer que a música, as ligações entre instrumentos, a gradação, os timbres, a melodia, tudo isso estava dentro daquele cérebro.
Custa a entender que a chamada música erudita, composta na sua grande maioria na Europa, não seja considerada uma música universal e haja civilizações e culturas, nomeadamente as muçulmanas, que não a cultivam pois tudo o que não seja musica de louvor divino não tem valor para a alma humana. Coisas destas espantam-me, não percebo, até porque há indivíduos árabes ou iranianos, chineses e japoneses, que se tornaram grandes intérpretes e rivalizam com os melhores ocidentais - mas os regimes e as religiões como que boicotam a extensão dessa maravilhosa arte aos seus povos, é  uma tristeza! Eu já passei horas no interior de mosteiros budistas  no Tibet ou no Butão, ouvindo os mantras e as músicas monocórdicas  que forçam a uma introspecção, quais drogas que nos ministram, e é bom - mas toda a vida a ouvir aquilo ? No interior das mesquitas de vários países já tenho estado nos períodos de oração e ouvido uns zumbido musicais  que servem naquele momento, mas mais nada depois... Como é que se pode viver uma vida intelectualmente rica sem ter, pelo menos de vez em quando, umas sessões de boa música de Bach, de Haydn, de Mozart, de  Shubert, de Chopin, ou de Méssian - ou de Beethoven? Somos capazes de imaginar estarmos por cá a ouvir apenas o cantochão ( que é muito bonito) e  as orações musicadas das igrejas cristãs?  Como a inteligência é igualmente universal entre todos os seres humanos de todos os povos e culturas, uma das questões com que me interrogo muitas vezes é porquê a arte fica tão limitada nesses povos e nessas religiões que são autenticamente castradoras da personalidade dos seres humanos - até porque, como já disse, dessas mesmas partes da humanidade saem grandes intérpretes das chamadas artes ocidentais. Não me venham com a história do eurocentrismo e da supremacia racista branca, se o ocidente europeu se desenvolveu mais neste sentido é porque houve alguma razão para isso - nada tem a ver com supremacia cultural, antes certamente económica que mais depressa se generalizou a todo o mundo. Estamos agora a assistir ao expansionismo chinês mas se quisermos ser bons observadores veremos que eles o que fazem é servir-se habilmente dos valores ocidentais e pouco nos transmitem dos seus valores próprios, para além dos dragões  nas danças rituais... Onde já vou só porque celebro hoje os 250 anos de Beethoven!

 Na minha pequena sala de estar, que é assim por decisão própria e por  apreciar o intimismo das pequenas velhas casas rurais,  existem 3 retratos ( eu que não sou muito dado a heróis) : um busto do Eça de Queirós ( como um Eça faz hoje falta neste jardim à beira mar mal plantado!), uma fotografia do Fernando Pessoa (com quem a alma humana atinge uma espécie de estratosfera) e um retrato ( por sinal de má qualidade) de Beethoven. 

O "Concerto para violino e orquestra" é  sublime, se alguém não conhece faça o favor de tentar ouvir e deixe-se extasiar.


2- 120 anos
Eça de Queiroz - está a chegar ao fim o ano em que comemoram os 120 do seu falecimento e seja pela pandemia, seja pela habitual inércia cultural e intelectual portuguesa para além do que seja o pequeno diz-que-diz  quotidiano, quase passou despercebida esta comemoração. Agora querem transladar os restos mortais para o Panteão . Vá lá, apressem-se porque o ano está a chegar ao fim...

3 - O Estado criminoso 

A morte do ucraniano, assassinado às mãos de tres agentes policiais do SEF, em instalações do aeroporto de Lisboa, é um crime  perpetrado pelo Estado português, por agentes do Estado, actuando em nome do Estado que se torna assim um Estado criminoso.
A gente pasma como é possível que isto aconteça e que só agora, nove meses depois, porque saltou para as primeiras páginas, vem o Governo bradar aos céus que uma coisa destas não podia ter acontecido. E o próprio MAI a dizer que não há indícios de outros crimes destes terem acontecido porque os inquéritos nunca assinalaram mortes ilegais. Mas estão a fazer de nós parvos ou quê? Então o primeiro relatório do incidente da morte deste ucraniano não diz também que tinha sido uma morte acidental? O investigador chefe olhou para o vídeo gravado na altura, falou com os tres energúmenos seus subordinados e não encontrou motivos para perceber que a morte tinha sido violenta e provocada por mero ódio ? Todos os anteriores relatórios sobre violência praticada nas catacumbas do aeroporto, que atestaram nada de muito grave, podem ser falsos como este também era!
E o Ministro acha que cumpriu o seu dever e nem sequer por vergonha - que ele disse que sentia - nem por isso  se demitiu . E o Primeiro Ministro por muito que lhe custe ver atingir amigos do peito e  por coisas deste calibre,  por muito que lhe custe, devia ter a dignidade de lhe pedir ( ao menos pedir,,,) que se demitisse. Por uma gravidade  diferente se demitiu a anterior Ministra, quando os incêndios rurais tiveram como causa principal a falta de  uma política florestal adequada e a falta de uma organização nacional de defesa e gestão da floresta de que ela não era culpada e de que o  próprio dr. António Costa  é  grande responsável, por ter dado a machadada principal nos Serviços Florestais, Pouca vergonha a mais.
4 - As eleições presidenciais
Quase ninguém vai dar pelas eleições presidenciais, dado este clima de temor pela  pandemia em marcha. Coisa que não preocupa nada o actual Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, autêntico suporte dizem a direita mais extremista e a esquerda em geral dos Governos do PS pela simples razão - disfarçada  sempre pelo "interesse nacional" - de que precisa dos votos socialistas para ser eleito sem problemas. Mas é evidente para todos que o segundo mandato de Marcelo não vai ser igual ao primeiro, e ele que é estruturalmente da direita vai fazer tudo para desgastar  o PS e abrir a porta à direita  mesmo, como já admitiu, que isso signifique aceitar o Chega. Ora não ! É evidente também que António Costa sabe muito bem que será assim mas ao seu próprio programa de vida não interessa, tem outros horizontes em vista e que quem  cá ficar que se aguente...
Não deixa também de ser curioso que toda a gente se preocupe com o Chega e com André Ventura, em especial a comunicação social que os traz ao colo e é a comunicação social a principal responsável pela publicidade feita àqueles dois expoentes da direita extremista. Parece que não querem ver - ou vêem e fingem que não - que o Ventura é um bluf, sem cultura política nem convicções de direita radical, bem falante e chico-esperto com certeza,  o que ele tem é um enorme apetite e uma excepcional capacidade de ir buscar os assuntos mais contundentes para apoiar. Não se nota nele - eu não noto, talvez seja falha minha... - grandes convicções ideológicas o que se nota é o  sábio aproveitamento de tudo quanto possa cair bem na grande massa de portugueses iletrados e/ou pouco ou mal formados ideologicamente, que querem ver as suas causas resolvidas Digamos que ele é um Trump em ponto pequeno e à portuguesa, 
Agora com quem  ninguém parece tomar atenção e é muito mais perigoso em termos ideológicos são os liberais acantonados (apenas alguns...) na IL. Esses são convictos e sabem que tipo de sociedade querem ; o mercado do laissez faire, laissez passer, o assistencialismo aos mais pobres e o recurso à saúde  privada equiparado à publica, para a livre escolha; claro  que só os ricos têm essa capacidade de escolha. Mas depois o Estado paga aos pobres para irem ao privado -  IL e os seus até agora apagados sequazes esses sim são perigosos -  é bom saber-se quem são e onde estão...

5- Democracia de novo assegurada nos EUA
A autêntica palhaçada que têm sido as eleições presidenciais nos EUA está a chegar ao fim, por agora. Virem dizer que os EUA são o exemplo e o farol da democracia no mundo - vão cantar essa loa lá para a China ou para a Arábia Saudita, aí  devem gostar...
Que a vitória de Biden não faça esquecer que 70 milhões de americanos votaram no maior idiota, mentiroso e  mentecapto  que o Ocidente já conheceu. 
E o sistema de eleição em que deixam de contar os votos da sempre válida  lei "um homem um voto" para contar uma eleição de um colégio eleitoral que pode falhar na última hora,  com uma Justiça que por pouco falhou  face aos assaltos que Trump lhe encomendou, não é exemplo de democracia para ninguém.
Com Biden pode ser que alguma normalidade volte ao Ocidente e que a figura dum louco e desvairado deixe de ser exemplo para outros tantos títeres deste mudo em convulsão.
6-Brexit
Finalmente o desacordo entre a UE e a GB está a chegar ao fim,  Sem acordo em assuntos fundamentais para a economia, eu acredito que virão muito maus tempos para os britânicos. Claro que os principais responsáveis são os ingleses, convencidos com a sua Rainha de que ainda têm o Império quando governavam, punham e dispunham no mundo inteiro. Talvez os escoceses lhes dêem a volta...







terça-feira, 1 de dezembro de 2020

 A espuma dos dias ...

1 - O 1º de Dezembro

Em 1640 recuperámos a independência,  e pena é que a Catalunha na mesma altura tenha sido sacrificada ao jugo castelhano.  Teríamos uma Península Ibérica muito mais equilibrada e pujante, se em vez de ser só Portugal independente ao lado do vizinho gigante,  tivéssemos também outras nações com cultura e identidade próprias como é o caso do País Basco.

Comemorar o 1º de Dezembro é ajudar a relembrar a luta de quase 900 anos deste pequeno povo esclarecido e por vezes genial, que superou dificuldades  século após século que teve a capacidade de entender o Renascimento e daí lançou a epopeia das descobertas pelo mundo fora.  Olhar a História com os olhos de hoje, como querem fazer certos  intelectuais de pouca sustentabilidade mas ávidos de  protagonismo , é  um processo redutor da Humanidade; podemos hoje discordar de métodos e processos usados pelas gerações de há séculos,  sim senhor, ninguém hoje sustenta a escravatura, a violência racial e outras praticas que se propalaram  nos séculos anteriores. Mas a escravatura existe desde que o homem é homem, em todos os povos e em todas as culturas, até escravatura de seres humanos das mesma etnia ou próxima ( o clássico exemplo da Rainha Giga de Angola, que lutou contra os portugueses mas ela mesma tinha centenas de escravos negros ao seus serviço é significativo...)  - por isso devemos lamentar também termos estado envolvidos nessa prática desumana - mas ainda não vi nenhum chefe ou lidere africano pedir desculpa aos seus concidadãos por os antepassados terem vendido os seus irmãos ao comerciantes  que chegavam com as caravelas  até às praias. Peçam lá desculpa, vá!!

Por isso temos todas as razões para nos orgulharmos das nossas façanhas e da nossa História, sem que daí possam nascer nacionalismos e xenofobias espúrias.

 2 - Eduardo Lourenço, da colheita de 1923

Faleceu hoje Eduardo Lourenço, pensador e  escritor  de grande gabarito, talvez um dos maiores senão o maior e mais profundo pensador dos séculos XX e XXI. Morreu com 97 anos,

Aqui há uns anos o Arqº Nuno Portas disse que os anos de 1922 e 23 foram de "grandes colheitas" em termos do nascimento de homens de elevada craveira intelectual. Na verdade, e certamente vão faltar alguns nomes, dessas colheitas fazem parte Gonçalo Ribeiro Telles, Nuno Teotónio Pereira, Fernando Távora, Eduardo Lourenço, ou Adriano Moreira


3- A crise que se aproxima - Creio sinceramente, como já foi  afirmado por alguns especialistas, que o próximo ano será de uma enorme crise em todo o mundo e nós seremos dos mais afectados, pela pequena dimensão da nossa economia e pela sua dependência do comércio externo. E muito perigosas serão a crise social e a crise politica inerentes, com o rol de desempregados, de falências de empresas e de agitação social . Serão os tempos dos populismos e do crescimento dos extremismos que hoje já não serão, sejamos claros, da esquerda mas antes os da extrema direita.  Já ninguém, nos países ocidentais pelo menos, espera que comunismos e  radicalismos de esquerda venham   a dominar seja lá onde for,  porque as sociedades  ditas burguesas já não toleram a tenaz do capitalismo de Estado.

Já tenho dito que a História se repete se nós  deixarmos que ela se repita, e o que aconteceu depois da pandemia da pneumónica, em 1917- 18 foi o crescimento exponencial, ano após ano, dos ideais fascistas e ditatoriais precisamente tirando partido das dificuldades das camadas mais desfavorecidas. As políticas dum liberalismo financeiro exacerbado, explorando nas fábricas e nas cidades superpovoadas os trabalhadores e a própria classe média que despontava, levaram a enormes desigualdades entre países e em cada país entre os diversos estratos das suas  populações. A  grande crise do  liberalismo sem regras que atingiu os EUA no final da década de 20, foi agravada com as decisões do então Presidente Hoover e dos seus conselheiros financeiros sobre um Estado menor, de que valia mais deixar rebentar a economia, deixar falir as empresas que não aguentassem a crise,  para depois se poder reconstituir de novo a economia de mercado. Essa decisão agravou a crise até ao limite e começou a sentir-se a sua repercussão nos países europeus. 

Foi então que eleito o Presidente Roosevelt, que adoptou uma política inversa, depois esplanada e teorizada  por Keynes, que foi a injecção maciça de investimento público nas empresas e na sociedade, graças à  reconstituição de um Estado forte.

Mas a falência das economias europeias prosseguia, a Inglaterra, a França, a Itália e em especial a Alemanha viviam anos de grande  dificuldade económica e a pobreza aumentava. O nazismo deu  resposta aos anseios da população mais desfavorecida, não foi por acaso que se intitulou Nacional Socialismo e Hitler chegou ao Poder  ganhando eleições livres, desde logo usando tácticas e métodos  de terror público que parece não terem feito recuar a maioria dos alemães que esperavam por um futuro melhor - o resultado da guerra demonstrou que foi um engano terrível.

Na Itália nasceu o fachismo de Mussolini e na Península Ibérica os proto fascismos franquista e salazarista; noutra economia relevante no Oriente, o Japão, sob a capa fanática do Imperador, nasceu o feroz nacionalismo nipónico que só Hiroshima e Nagasaki haveriam de  destronar.

Nesta ano da nova pandemia os EUA voltam a estar na linha da frente do grande  desastre mundial. desde que a percentagem mais estúpida por um lado dos americanos menos cultos  e por outro lado dos manipuladores  da economia de mercado e das religiões extremistas, muitas vezes associados, enviaram opara Presidente o paranóico e sem escrúpulos Donald Trump. O seu posicionamento e as suas ideias  anti democráticas têm servido de exemplo e de estímulo aos protagonismos da direita reaccionária um pouco por todo o mundo.

O comportamento de alguns países da União Europeia é bem demonstrativo como as influências das ditaduras em povos mal preparados para a democracia, deixam resquícios altamente perigosos em termos civilizacionais para todo o continente europeu e - eu continuo  a ser eurocentrista... - para todo o mundo .Veja-se a dificuldade que alguns países que estiveram décadas integrados nas ditaduras comunistas eufemisticamente designadas democracias populares ( quem as visitou como eu, viu como era,,,) em aceitarem as regras da democracia liberal ou "burguesa" a ponto de, casos da Polónia e da Hungria, porem em risco a disponibilidade de fundos europeus para acudir à pandemia. Aqueles povos, depois de umas primeiras experiências democráticas a seguir ao  desabar do Muro Berlim ( que o PCP português diz que não foi nada...) deixaram-se voltar a seduzir pelas ideias  mais extremistas e  antidemocráticas de salvadores da Pátria. Esses dois são os mais explícitos, mas noutros países da Europa oriental a estabilidade democrática como a conhecemos por  aqui está sempre em risco.

Estamos num desses tempos de encruzilhada e devemos estar preparados para rebater todos os sinais de ameaça para a democracia que não é "orgânica" como queria o salazarismo nem "popular como querem  (ainda hoje !...) os marxistas leninistas ou trotzequistas  ou maoistas ou sejam á o que  forem - é a democracia  de origem liberal e burguesa, sim senhor, mas moldada  aos valores da solidariedade e da defesa do colectivo e de um Estado Social forte para poder acudir, como nesta pandemia, às necessidades prementes da economia e dos cidadãos. Veja-se como agora os autodenominados liberais pedem que o Estado intervenha, que ponha dinheiro nas empresas, que ajude o mercado a funcionar...  Menos Estado para melhore Estado, não é ? Pois, foram das crises, claro.







segunda-feira, 23 de novembro de 2020

 Ainda Gonçalo Ribeiro Telles


Quando vinha de Lisboa para o Algarve, naquele fim de  tarde depois da saída do funeral dos Jerónimos, foi quando caí em mim, como se levasse uma grande pancada : nunca mais voltaria  a subir as escadas da Rua de S.José ! Durante os últimos 4 ou 5 anos, e  de forma quase semanal nestes últimos meses em que o Gonçalo piorou e estava isolado de visitas ( permitiam a mim, fora da família,  que o visitasse), estive com ele, assistindo a uma lenta e progressiva agonia, com cegueira, com quase impossibilidade de falar - mas consciente, mesmo debaixo da sonolência que os  sedativos lhe provocavam, ele reconhecia-me e prestava alguma atenção ao que eu dizia só para o manter ligado.  Acabou o meu empenho em continuar a escrever sobre este velho e grande Amigo.

No entanto, por solicitação insistente, acabei por escrever o último artigo em memória do Gonçalo, que veio publicado no Jornal de Letras. Mas acharam por bem ( acharam eles, sem me dizer) que deviam cortar algumas frases, o que acho intolerável.  Por isso aqui vai na íntegra.

Gonçalo Ribeiro Telles, o Homem, o Mestre

É fácil e é difícil escrever sobre Gonçalo Ribeiro Telles.

Fácil porque todos o conhecem e sabem muito daquilo que ele construiu ao longo da vida; difícil para não cair nos lugares comuns estereotipados que são sempre utilizados nestas laudas.

Antes de abordar o Mestre vou tentar abordar o Homem com quem convivi com intimidade quase 60 anos, mas tenho de falar de mim porque, depois de tantas personalidades terem escrito sobre ele,  essa é a única razão para eu poder escrever  estas linhas sentidas. Foi meu Professor coadjuvando o Professor Caldeira Cabral e, para meu espanto, habituado a ver o Estado Novo perseguir republicanos e comunistas, ele - católico e monárquico - foi expulso do ensino! Foi também expulso da Câmara Municipal de Lisboa por uma exemplar questão de ética profissional ligada ao seu projecto para a Avenida da Liberdade.

Numa das últimas aulas que deu convidou-me para ir trabalhar no seu atelier e também para eu aparecer nas noites de quarta feira no Centro nacional de Cultura, onde se discutis Cultura e Liberdade. Para as gerações de hoje isto talvez pouco diga, mas era precisa coragem para aqueles homens e mulheres de grande valor se posicionarem, daquela forma, e naquele lugar, ali mesmo pegado com o quartel da PIDE.

Gonçalo Ribeiro Telles afirmou-se sempre como "monárquico popular" mas alinhou durante décadas com a oposição republicana ao regime. As suas convicções monárquicas, que eu não partilhava,  mas inspiradas em valores da Cultura e da Tradição, contribuíram decisivamente para alargar os conceitos de democracia e de convivência democrática nos ideais da Liberdade.

Basta dizer que em 1973 foi convidado a participar, mas impedido de o fazer, no 3º Congresso da Oposição em Aveiro, onde apenas  conseguiu chegar o dr. Henrique Barrilaro Ruas que leu a sua mensagem, mas a presença dos monárquicos foi possível depois do Congresso ter deixado cair a designação de Republicano para passar a ser da "Oposição Democrática" - o que só por si também diz muito do prestígio e da consideração que Ribeiro Telles já então granjeava.

Recordo-me de, em 1959, ele ter sido incomodado pela PIDE, instaurando-lhe um processo e tribunal, por ser signatário duma Carta a Salazar ( de que tenho ainda uma cópia) que partiu de um grupo de católicos progressistas encabeçada pela grande figura do Padre Abel Varzim, que incluía outros sacerdotes e personalidades da craveira de Francisco Sousa tavares, do hoje tão esquecido José Escada, João Bénard da Costa, Sofia de Mello Breyner, Nuno Teotónio Pereira e outros.E constava do documento da acusação que ele "tinha custeado a impressão da carta e sua distribuição"...

Como dirigente dos monárquicos independentes e populares  participou nas diversas eleições que se organizaram, em 1958 integrou a candidatura de Humberto Delgado e em 1969, por convite de Mário Soares, participou nas listas da CEUD através da Convergência Monárquica que chegou até 1974 - tudo o que significasse democracia e liberdade dizia-lhe respeito.

Por mim, que deixei de o ter como Professor no ISA, continuei a tê-lo no seu atelier e tenho recordações incríveis desses anos. Eu, republicano, passei a ser um dos seus mais dilectos discípulos e as nossas conversas sobre politica e sobre tudo o que nos rodeia, ao longo de todos estes anos, apenas cimentaram  uma enorme amizade e uma grande, muito grande, compreensão da minha pare pelo se génio. Porque é de génio que se trata.

A sua invulgar capacidade intelectual, revelou-o como criador de de paisagens e como inspirador de ideais democráticos, pois para Gonçalo Ribeiro Telles tudo se conjugava numa concepção global da paisagem, dos homens, do património natural explorado para dele se edificar o património construído- tudo se conjugava numa grande IDEIA comum. 

Todos têm falado dele em 1967, quando ocorreram as trágicas cheias da região de Lisboa que provocaram centenas de mortos e cujo número o regime tentou encobrir.  Nessa data, à personalidade de homem politico Ribeiro Telles veio tornar pública  a sua qualidade de grande técnico, a afirmação  de Mestre, surgindo inesperadamente na televisão a explicar as razões que tinham dado tal dimensão às chuvadas anormais que haviam caído na região. Denunciou a ocupação dos leitos de cheia e das cabeceiras das bacias hidrográficas pelas populações desfavorecidas e apontou o dedo à falta  de políticas de habitação, de apoio social e de ordenamento do território; falou de conceitos e de uma terminologia técnica que hoje nos são familiares mas que, na altura, surgiam como novidade para muitos  técnicos e sem dúvida para a opinião pública.

Com os 25 de Abril de 74 Gonçalo Ribeiro Telles, já então Presidente do PPM - Partido Popular Monárquico -  foi chamado para Sub-Secretário de Estado do Ambiente, passando depois a Secretário de Estado da mesma pasta. E teve o "desplante" de me convidar para seu chefe de gabinete, eu que sempre fui republicano e avesso ao activismo politico - mas a ele não fui capaz de recusar.

Gonçalo Ribeiro Telles depois de ter saído do VIº Governo Provisório, voltou ao ensino universitário em 1976, para a recém criada Universidade de Évora, construindo o Departamento de Planeamento Biofísico  que englobava  as licenciaturas em Arquitectura Paisagista e Engenharia Biofísica e que ele dirigiu até á sua jubilação.

Mas não abandonou a intervenção politica, participando como deputado na Assembleia da República pelo PPM integrado na AD e masi tarde como deputado independente elo PS.

Por trás do Homem, democrata, íntegro, espírito impregnado dos melhores valores humanos e colectivos, que lutou sempre pela liberdade e pela coesão social, para lá de ideologias catalogadas, estava pois o técnico, o visionário, o Mestre.

Foi entre 1979e 1983 que Ribeiro Telles teve a mais importante contribuição da sua vida para a consolidação da Política de Ambiente e de Ordenamento do Território, dando dela a verdadeira imagem pública  que já era  respeitada por todos quantos com ele privavam. Foi Ministro de Estado e da Qualidade de Vida e ainda hoje, apesar dos atropelos, das (in)correcções, das incompetências, das submissões a valores mercantilistas tornados mais importantes que a verdade das Ciências da Terra, a Política de Ambiente em Portugal assenta na legislação que saiu da sua vontade política : e não vou repetir o que já se escreveu sobre a sua acção nesses domínios.

Chamado por vezes  de utópico e idealista, nunca se afastou da realidade que é representada pela  Vida, quer no espaço rural quer no espaço urbano. Terçou armas para que paisagem urbana e paisagem rural fossem entendidas apenas como duas faces da Paisagem Global. em que a Natureza esteja presente e em que o homem tire dela proveito sem a prejudicar - hoje todos lhe dão razão por ter insistido quase obcessivamente na importância das hortas urbanas e dos corredores verde. Pôde ainda assistir à concretização duma sua "utopia" lisboeta, o corredor verde entre o Parque Eduardo VII e o Parque de Monsanto..

Utopia com os pés na terra- define bem a sua postura.

Batalhou sempre a favor do conhecimento e do respeito pelo genius locci de cada lugar - e lançou os primeiros impulsos mediáticos a favor do equilíbrio das paisagens, da defesa da Biodiversidade, do respeito pelas leis da Natureza semn fundamentalismos porque essa é também a ideia magna da arquitectura paisagista - a arte e a ciência de ordenar o espaço em relação ao Homem, com respeito pelas leis naturais da Biosfera. Foi assim o Mestre de muitas gerações.

Acompanhei Gonçalo Ribeiro Telles nos últimos anos em que aguentou um sofrimento físico e psíquico impressionante, como impressionante foi sempre a sua resiliência até ao último sopro - com 98 anos feitos.

Não basta dizer que Portugal tem uma grande dúvida para com ele - é preciso e urgente que alguém tenha a coragem de implementar as suas ideias sobre o território e a paisagem, única homenagem digna do Mestre que ele foi.

















quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 Este mundo conturbado e este país destroçado

Escrevi a última nota a 5 de Novembro e só hoje posso retomar, por mais um exemplo do atraso deste país - um temporal mais forte ( que seria se tivesse ocorrido um ciclone ou uma tromba de água?!) arruinou a rede de que dependo para ter internet e a Altice, ou MEO, levou 10 dias para reparar um problema de fios de cobre lá fora e o meu router cá dentro, sendo que este já era velho demais...

Só quero deixar uns apontamentos de alguns assuntos, para memória futura.

NESTES DIAS TANTAS COISAS ACONTECERAM !

   1- Gonçalo Ribeiro Telles - 

  Finalmente chegou o seu dia de partir. Quando há uns meses lhe perguntei como estava, ainda falava mas mal, e balbuciou " estou morto mas eles não sabem".  de outra vez, tentando mantê-lo interessado nos assuntos desta época, falei  da pandemia; e deixou escapar um comentário : "esta doença não tem cura", disse-lhe que a pandemia teria cura mas ele retorquiu " a doença que eu tenho não tem cura"- estava bem ciente do seu destino. Com autorização da família para o visitar, visitei-o quase todas as semanas, cheguei a ir a Lisboa quase só para  estar com ele; quando nas últimas semanas já tinha largos períodos de inconsciência, debaixo daquela letargia que lhe proporcionavam os tão apregoados cuidados paliativos, ( dá-me vontade de aplicar em vida activa aquela receita aos estridentes técnicos, uma delas pelo menos, que aparece sempre na TV e acha que com aquilo resolvem tudo, o diabo que a carregue mais a sua receita) ; tinha outras alturas de plena consciência, apesar de cego e de não conseguir falar - dei-lhe a minha mão, disse-lhe quem era, perguntei se sabia quem eu era e ele apertou a mão longo tempo e deixou cair uma lágrima pela face abaixo. Quem fica indiferente a este sofrimento, semana após semana ? Se eu não fosse  já acérrimo defensor da eutanásia, com todos os cuidados e regulamentos que deve ter,  estes anos de acompanhar o GRT bastavam para me convencer,

Gonçalo Ribeiro Telles, sempre enquanto tivermos um sopro de vida !!

2 - O perigo mundial dos EUA

Os EUA sob a presidência de Trump constituem um enorme risco para a segurança mundial; e como já tem sido dito por muita gente, o pior nem é o próprio Trump, se bem que da mão dele podem sair actos de grande perigo para a paz no mundo, O pior são os 70 milhões de americanos que votaram nele e o suportam nos imensos disparates que faz e diz todos os dias.

Estas cenas caricatas de estar dentro da casa Branca, a negar o resultado das eleições e a mudar o visual do cabelo do louro cor de cenoura para o grisalho natural, para mim não passam de tentativas de atrair sobre ele as atenções dos imbecis capazes de o ajudarem a manter a situação estupidamente  equívoca  de que ganhou e não vai sair lá de dentro.

Os discursos do Joe Biden e o da Vice foram  reconfortantes, e com eles pode ser que volte a tranquilidade ao mundo que é tão afectado pelas medidas que os EUA  tomarem.

3 . O PSD  e o Chega - como se pode descer tão baixo?








quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 Assim vão os anacronismos deste mundo...

Lá pela América -   Estes dias de contagem de votos nos EUA  revelam  como é falsa a ideia de uma velha e  estabilizada democracia, exemplo para todas as outras. Exemplo uma ova !

Como é possível considerar exemplar uma democracia que, para eleger o Presidente, não conta a regra democrática de um homem um voto, antes a opinião de milhões de cidadãos se esvai num colégio eleitoral ainda por cima repartido de forma desleal pelos diferentes Estados, pois mesmo que existam votos a favor de um candidato, quem tiver mais arrecada tudo !? Já nas anteriores eleições a Clinton teve mais votos que Trump...mas perdeu - isto é aceitável?

Como é possível considerar independente e  exemplar uma democracia em que os juízes membros do Supremo Tribunal decidem  quem ganha ou perde conforme estiver na presidência desse Tribunal um juiz favorável a este ou àquele candidato ?! 

Como é possível que um Partido, neste caso  com a responsabilidade do Partido Republicano, se deixe aprisionar por um sujeito que qualquer pessoa bem formada   não tolera, mentiroso, raivoso, prepotente, capaz das maiores pulhices, sem educação cívica e política !?  É ridícula, e basta por si mesma, esta situação de num Estado os apoiantes de Trump estarem a  pedir na rua que não parem a contagem dos votos e no outro Estado estarem a clamar para pararem a contagem dos votos ?! Parece uma comédia barata demais para ser verdade - mas é verdade.

O islão no seu pior 

Em França várias vezes, agora em Viena, sucedem-se os atentados horrendos contra cidadãos indefesos por uns marginais extremistas islâmicos que mata e decapitam as pessoas aos gritos de Ala é grande como se estivessem nas suas terras a combater infiéis.

Começa-se por estranhar - ou talvez não - que os Governos dos países islâmicos não venham de forma clara   denunciar os crimes praticados em nome da sua religião - e percebe-se porque, por exemplo dos Emiratos como Dubai ou Abu Dabi, nas praias e hotéis os turistas andam à ocidental,  as mulheres de biquini, sem qualquer repressão das autoridades que o promovem até para terem mais turismo -não seria de os extremistas começarem por combater os infiéis nos seus próprios países ? É que nem lá entram... 

Os países ocidentais têm de se deixar de democracia nas relações com os Estados islâmicos, com as coisas muito bem definidas - quem emigra para um país obriga-se a respeitar as regras, o estilo de vida, a religião e todas as formas de civilização do país que escolhem.   Se a emigração é um direito dos homens, ela tem que ser regulada por regras, e é mais que altura dos países ocidentais imporem restrições a quem não oferece garantia de integração. As religiões foram sempre responsáveis por estas situações de extremismo, já o fizeram os cristãos mas numa época em que essas práticas condenáveis  faziam parte da maneira de ser. Hoje não ! Avançamos muitos séculos sobre a barbárie dos cruzados e das purgas da Inquisição. Agora é tempo de exigirmos a todo o mundo que cada macaco fica no seu galho se não gosta do galho do parceiro.

A ONU devia iniciar um processo em que os países de origem de emigrantes criminosos sejam obrigados a  receber os sujeitos que forem recambiados para os seus países de origem - claro que cada um quer ver-se livre desses energúmenos, mas que tratem deles à maneira islâmica...

Eu até acredito que o Islão pode ser uma  religião de paz, embora tenha na sua essência o proselitismo militante, como têm o missionarismo cristão ou o lamaísmo budista, qualquer um destes dois sem provas de serem violentos. Lemos  Mohammed Arkoun, eminente filósofo e docente argelino  e acreditamos que o Islão pode ser uma religião  fortemente humanista  - mas os governos dos  países que assumem a religião como matéria de Estado estão a atrasar a evolução da religião para aquilo que outras religiões - cristianismo, judaísmo, hinduísmo- conseguiram que foi separar o Estado das igrejas, César e Deus podem ser amigos mas não se fundem. Mas os países não islâmicos têm fortíssimas responsabilidade pois calam ou apenas fingem que protestam porque lá vem atrás os grandes interesses dos recursos naturais, do negócio financeiro internacional,  da interdependência das economias - e tudo isso pesa mais que a felicidade dos povos...











quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 Hoje

Vou escrever o que tem sido dito e escrito em vários tons e meios de comunicação social - hoje joga-se em larga medida a continuidade da nossa civilização ocidental.  Trump pode ganhar as eleições nos EUA. Mas mesmo que eventualmente as perca, o mais grave é a existência  dos milhões que votam nele e significam  metade ou mais de metade da população da maior potencia ocidental. A esperança numa mudança das políticas mundiais, depois  da pandemia  ter revelado as consequências da globalização liberal  das últimas décadas , vai esvair-se com a influência que um regime trumpista  terá nos nacionalismos e fascismos nacionais um pouco por todo o mundo.  De pouco vai valer alguma união que ainda se note entre a maioria dos países europeus, porque também em muitos deles  a subida das  avalanches  de extrema direita  vai ´baralhar tudo.                                 

domingo, 1 de novembro de 2020

 Estes tempos que vivemos

As nossas gerações estão a viver algo que acontece de vez em quando neste mundo, uma  pandemia.

 Para os mais velhos é um risco maior de morte, mas para os mais novos vai marca-los profundamente, pois alterou hábitos e rotinas, transtornando a percepção de valores essenciais ao crescimento da mentalidade, abrindo brechas  na formação e na informação de vastas camadas da juventude. É preocupante.

Com a crise social e económica que segue por arrasto a crise sanitária, o mundo está numa altura crucial que pode produzir ou uma nova visão do futuro, da vida, da forma de viver em democracia mais exigente, ou então um desvio civilizacional terrível em termos da Humanidade. A seguir à última pandemia de 1917 seguiram-se anos de pobreza e desgoverno, passou-se pela grande depressão dos EUA, formaram-se par a par os comunismos asfixiantes das liberdades e os ainda piores regimes fascistas europeus, os nacionalismos japonês e chinês, enfim, um tempo de  confrontação implacável. Na altura da grande depressão os EUA salvaram o descalabro com a intervenção de um grande Presidente, Roosevelt, que aplicou a receita keinesiana de atirar milhões de apoio público para a economia, o que só um Estado forte pode fazer: ao travar a depressão americana aliviou - a também nos países europeus que tinham com os EUA, como hoje tem, forte dependência económica e ideológica.

A diferença hoje é que temos como Presidente dos EUA um perigoso charlatão, mentiroso, arruaceiro, senhor dos piores valores éticos que um político pode ter e ainda mais relevantes com a posição que ele tem.

As eleições daqui a dois dias são assim um ponto do fio da navalha em que está todo o mundo.