terça-feira, 31 de dezembro de 2019

FIM   DE  ANO

1 - Está a acabar mais um ano, e para mim mais um ano é como um abono acima do prazo de validade. Sempre pensei que aí pelos 75 terminaria, e em beleza, o meu percurso vital. Quando chegaram os 80 disse para comigo que se houvesse mais daí´em diante seriam considerados abonos acima do prazo de validade, e assim vai sendo.
Hoje depois da minha banhoca no mar senti-me renovado e com o amigo Mário Lázaro, que ao pé de mim  é ainda um puto, comentámos esta nossa já "longa" tradição : a 31 de Dezembro tomamos o "banho de purificação"  e a 1 de Janeiro iremos ao "banho de iniciação"; amanhá lá estaremos nem que chovam picaretas.
2 - Triste ano 2019
Foi  um ano triste, este que hoje acaba. O mal, puramente mal, rebenta como cogumelos entre a merda de gente sem escrúpulos, um pouco por todo  mundo. Passam os anos, passam décadas e quando se pensa que  talvez a Humanidade comece a revelar as suas melhores facetas, eis que se renovam práticas e ideias que deveriam estar enterradas para sempre.  Ouço atribuir a Einstein a frase de que "há duas coisas infinitas no Universo, o Cosmos e a estupidez humana, mas não estou certo quanto à primeira!  Seja quem for que a tenha pronunciado é mesmo verdade, e embora a ciência e o conhecimento vão aumentando em todo o mundo, pasmo como é que  pessoas com responsabilidades sobre milhões de pessoas, continuam a desdenhar e duvidar daquilo que cada vez mais se vão tornando verdades do nosso dia a dia. O clima muda a olhos vistos e pessoas responsáveis continuam a dizer que sempre houve grandes mudanças, que não é tanto ao homem que se devem as alterações que agora estão a ocorrer com cada vez maior evidência. Esta oposição à verdade é sempre resultado de estilos de vida e de lucros da economia que muitas pessoas não querem perder, esperam que durante as suas vidas não virão grandes desgraças e quem vier depois...que se aguente. É também uma forma de populismo barato e obscuro, apresentar-se como contestando o que milhares de cientistas em todo o mundo vêm avisando há décadas e agora com maior acuidade e insistência. Ao menos que pensem nos seus  próprios filhos e netos que vão sofrer as consequências da insanidade actual. Ficou muita gente enervada e até  irritada ( como aquela besta do Bolsonaro)  com a "pirralha"  sueca, a Gretta,  que veio agitar o mundo e consegue movimentar milhares de jovens em todos os continentes. E ela acusa os adultos das gerações mais responsáveis - como têm coragem de destruir um  mundo  que já não é vosso pois já pertence às novas gerações ? Envergonha os que tentaram fazer alguma coisa como alguns da minha geração, sem grandes resultados, mas sobretudo todos aqueles, que é a maioria, que nada fizeram e ainda clamam contra quem os acusa. Sempre houve vagas de calor ? Pois houve. Sempre houve ciclones? Pois houve. Sempre houve alterações climáticas sem o homem intervir ?  Sim, durante milhões e milhões de anos o planeta mexeu e matou muitos milhares de espécies - que agora há uma espécie que pela primeira vez no Universo conhecido, pensa nisso; e sabe que estas transformações climáticas, no sentido de um aquecimento global, estão até a contrariar uma possível pequena era glaciar que geologicamente estaria para acontecer...
E só não acontece devido a actividades humanas, pelo aumento do teor de CO2 na atmosfera a que se começam a juntar cada vez maiores concentrações de metano como  o exalado dos permafroste postos a descoberto.
Hoje, 31 de Dezembro, estava a mesma temperatura nas Penhas Douradas e em Faro, dito no noticiário da manha.Já tinha ocorrido ? Talvez, que eu me lembre não. Na Tasmânia, o território mais próximo do Polo Sul estão pela primeira vez  temperaturas a rondar os 41ºÇ, mais do dobro do que deveria ser a temperatura nesta época. Os incêndios na Austrália e na Califórnia  (nem sequer a outra besta do Trump quer ver) atingem proporções  de catástrofe mundial. O degelo das calotes polares toma proporções dramáticas - mas tudo isto aos olhos daqueles que compõem a grande massa da estupidez humana referida por Einstein, são fenómenos que tinham de acontecer ( então o Sahara já foi fértil hoje não é,,,) e portanto o que há a  fazer é continuar a ganhar dinheiro enquanto der, depois  se for mesmo como "eles dizem", há que ir ganhar dinheiro  a defender o contrário. 
Acabamos 2019  com a revolta generalizada de populações em todo o mundo, desde a Ásia, à América Latina e à Europa, porque o capitalismo liberalista ou libertino já ultrapassou as fronteiras do admissível para milhões de pessoas e continuará sempre a haver quem não queira perceber e tentar apagar as revoltas com força e fogo...
Na parvalheira deste jardim plantado à beira do Atlântico, e aproveitando a "popularidade " da transição climática e das alterações climáticas que agora servem para encobrir também a incompetência, um perclaro ministro determina que a maneira de evitar as tragédias das cheias do Baixo Mondego é começar a pensar em mudar as povoações para outro lado ...Valha-nos  alguém, seja Jeová, Deus ou Alá, que este país está a ir por água abaixo...



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A espuma dos dias
1 - Ventura e o populismo que chega em força
Já faltava no panorama político português uma demonstração clara do populismo reaccionário de certa  direita que tem brotado em todos os países europeus. Houve um ensaio com a Assumpção Cristas e o CDS  mas correu mal, por falta de jeito e por falta de capacidade comunicacional; mas  com o deputado do Chega o populismo "chegou" mesmo e em força porque ele tem a desfaçatez, a falta de vergonha e o dom da palavra que lhe abrem o caminho para trilhar. Todos os demagogos com êxito têm esses dotes. Mas o que ele tem a ajudar, e de que maneira, é  a comunicação social que está precisamente a fazer aquilo que ele quer e de que precisa : dar-lhe tempo de antena, dar-lhe palco. Se as diatribes e as jogadas  teatrais que ele ensaia no Parlamento não tivessem eco na imprensa e nas televisões, o efeito que ele pretende alcançar sairia muito mais dificultado.
2 - Dragagens do Estuário do Sado
As dragagens do rio Sado põem em perigo a riqueza biológica do Estuário e ameaçam não só prejudicar gravemente  toda a fauna estuarina como em especial afastar o núcleo de golfinhos que ali reside. Isto faz-se com o beneplácito do Ministério do Ambiente, que se esquece que devia estar ali a gerir criteriosamente a Reserva Natural do Estuário  - mas o Ministro e os que o rodeiam querem lá saber disso !! Desde que atribuíram tantas incumbências ao Ministério, a única razão deve ter sido distrair a opinião pública dos deveres e dos compromissos que um Ministério do Ambiente deve ter com a Conservação da Natureza. As Áreas Protegidas estão ao abandono, e a APA é...desconcertante !!E como o Ministro declarou ao Expresso com toda a ênfase que não é ambientalista, por isso é que foi escolhido para o cargo, ou seja  apenas um manga de alpaca e yess Prime -Minister.  É o mesmo Ministério do Ambiente que aprova o aeroporto de Montijo e como um Estudo de Impacte Ambiental chumbou o projecto,  mandou fazer outro e mandaria fazer tantos quantos  fossem precisos para darem certo, isto é próprio da República das Bananas, seja lá ela onde for... É o mesmo Ministério que está incumbido de autorizar e defender a exploração do lítio, quando isso deveria pertencer a um qualquer Ministério da Economia ou da Industria e o do Ambiente estaria vigilante ao desenrolar da actividade. É o mesmo Ministério que tem ( devia ter) uma actividade "qualitativa" - já se chamou da Qualidade de Vida quando era um Ministério do Ambiente a sério - e passou a "quantitativo" pois que acolhe as Florestas, nitidamente "roubadas" ao Ministério da Agricultura, e vai preocupar-se com o abate das madeiras, com a função produtiva  e quantitativa das matas, com a gestão dos eucaliptais - e autorizar a plantação de eucaliptos, pois claro. tudo isto é "Ambiente".
3 - Trump e os americanos
Este processo de despedimento de Trump da Presidência dos EUA  não vai dar em nada, apenas é uma farsa, uma série de ridículos procedimentos teoricamente democráticos, onde a gente pasma com o que é afinal a democracia tão apregoada dos norte americanos.
Começo por questionar que povo é este que se revê num triste  palhaço, cheio de manhas, de trejeitos, que qualquer sociedade minimamente evoluída repudiaria.
O Partido Republicano é um partido que historicamente já deu grandes personalidades  aos EUA, que tem um  historial de defesa e combate pela democracia e que até já foi mais progressista que os democratas; e que no caso de Nixon teve a coragem de assumir. ou pelo menos de não impedir o  despedimento. Tinha agora uma oportunidade de ouro para se ver livre  deste individuo e repor dignidade na Presidência americana. Se como tudo indica for apenas por razões politico-partidárias que vai travar o despedimento dum tosco como é Trump, ficará  na História com um  desempenho muito, mas muito negativo.









domingo, 15 de dezembro de 2019

Crimes contra o clima, a Terra e a Humanidade
Esta luta de alguns, aliás a maioria da Humanidade, contra uns poucos que teimam em não  colaborar na defesa do planeta contra as acções humanas que agravam o aquecimento global e dessa forma agravam as alterações climáticas, é uma luta mesmo de vida ou de morte.
Para só falar no último século houve títeres que causaram directamente a morte a milhões de pessoas, coisas em dimensões impensáveis - Hitler  com o nazismo, os campos de concentração e de morte e uma guerra de carnificina ; Estaline com o comunismo extremista, os campos da Sibéria, os assassinatos; Pol Pot; Mao Tse Tung e as suas  milícias da revolução cultural - ficam na História como os maiores facínoras do século XX.
Hoje há responsáveis políticos que negam a gravidade do processo climático, que se recusam a travar o combate gritado bem alto por milhares de cientistas e investigadores, políticos como sejam Trump. Bolsonaro, os da Polónia, os da Hungria, que estão a arrastar milhões de pessoas em todo  mundo para a morte e o desespero. Temos também nós que ser radicais e exigir para esses governantes o mesmo juízo e a mesma condenação histórica que é atribuído aos grandes criminosos .
O papel da  pequena sueca Gretta é simplesmente admirável. Tem folclore à volta dela ? tem; há aproveitamentos políticos menos claros? há, como sempre acontece às melhores acções do ser humano;   mas uma coisa é verdade - ela consegue mobilizar milhares de jovens em todo o mundo e, por arrastamento, milhares de adultos. Aquilo que gerações anteriores, como a minha que foi das primeiras a erguer-se contra os prejuízos feitos ao Ambiente pela sociedade de consumo, não conseguiram, está esta miúda agora a conseguir. Ataques de uma  direita envergonhada, ataques directos da direita mais liberal e  extremista, ataques de alguma esquerda presa ao despeito de não ter conseguido o êxito que a Gretta consegue - tudo isso se conjuga para tentar desfazer no mérito da jovem sueca e dos milhares de jovens que pela primeira vez se erguem pela causa do Ambiente e enchem as ruas das cidades, 
Até que enfim !! A Humanidade que acorde ! 
Repito, é  altura de escarrapachar os nomes dos negacionistas para que fiquem impressos na História dos desavergonhados e dos criminosos - as gerações vindouras que vão sofrer as consequências das irresponsabilidades destes governantes, têm de saber quem contribuiu para o desaire futuro da Humanidade. Pode parecer exagero, mas é apenas a verdade do que aí estará a chegar !!




sábado, 30 de novembro de 2019

Fernando Pessoa
Neste dia, 30 de Novembro de 1935, morreu Fernando Pessoa, de que nem vale a pena escrever muito, pois tudo quanto eu disser será ridiculamente  pouco face aos milhares de páginas que sobre ele já se escreveram.
Mas sempre digo que para mim tanto ou mais importante que a poética em si mesma  é a profundidade do seu pensamento, entrando  por domínios do espírito que dificilmente será igualado. É grande a nível mundial, reconhecido por quantos  têm podido ler a sua obra.
O facto da coincidência com o meu nome tem dado ocasião a episódios com piada, alguns até ridículos, outros que dizem da dimensão do grande  poeta-filósofo.
Apenas uma história : eu sou leitor assíduo há muitos anos da obra do filósofo francês, revolucionário e tão contestado como enaltecido,  Michel Onfray: sucedeu que ele veio a Lisboa aqui há uns anos, ao Instituto Franco-Português, apresentar a edição na nossa língua do seu livro La puissance de vivre"."A potência de viver". No final da sessão fui pedir o inevitável autógrafo do exemplar que adquiri e, é claro, ao ver o meu nome ele exclamou para quem quis ouvir, dizendo que o Fernando Pessoa é um dos maiores intelectuais europeus do século  vinte, e ainda irá escrever um livro sobre ele.

"Sim, está tudo certo.
Está tudo perfeitamente certo.
O pior é que está tudo errado.
Bem sei que esta casa é pintada de cinzento
Bem sei qual o número desta casa -
Não sei, mas poderei saber como está  avaliada
Nessas oficinas de impostos que existem para isto - 
Bem sei, bem sei...
Mas o pior é que há almas lá dentro
E a Tesouraria de Finanças não conseguiu livrar
A vizinha do lado  de lhe morrer  filho.
A Repartição de não sei quê não pôde evitar
Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse com a
                                                                                      cunhada...
Mas, está claro, está tudo certo...
E, excepto estar errado, é assim mesmo : está certo... "

E  René Magritte  pintou o quadro do cachimbo e escreveu :       "Ceci n'est pas une pipe"

O que parece ser, não é; aquilo que vemos é apenas a imagem da coisa em si, seja a casa pintada de cinzento seja o cachimbo. É sempre a traição das imagens...

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

As grandes  cheias de Lisboa em 1967
Durante a tarde e a noite de 25 para 26  de Novembro de 1967 choveu na região de Lisboa, em menos de 24 horas, um quinto da precipitação média anual e os resultados foram a maior catástrofe natural que aconteceu na capital depois do terramoto de 1755. O Governo de Salazar tentou encobrir a dimensão da tragédia, mas a pouco e pouco vieram ao de cima os números : mais de 700 pessoas morreram nos concelhos limítrofes da capital, vítimas do desordenamento do território. Eram as camadas mais pobres que não tinham posses para ter casa própria em sítios adequados, e que ocupavam  os terrenos públicos ou mais baratos da periferia, em condições deploráveis.
Eu nessa altura morava na Madeira mas vim a Lisboa e creio que foi a 27 desse mês que, um tanto embasbacado, vi na Televisão, no noticiário da noite, o Arq.ª Gonçalo Ribeiro Telles a explicar as razões do sucedido. Ora não havia memória do Ribeiro Telles ter tempo de antena, opositor como era do regime, e como recordava aqui há uns anos a Arqª Helena Roseta, ele veio  falar de assuntos que hoje são lugares comuns mas que na altura poucos - além dos arquitectos paisagistas -  conheciam : ocupação de leitos de cheia, impermeabilização e ocupação das cabeceiras das linhas de água, abandono dos solos agrícolas, etc. E apontava para a necessidade de se ordenar a paisagem, de corrigir as linhas de água e proceder à limpeza e reconstrução, em termos funcionais, das cabeceiras e dos leitos de cheia. Nessa altura eu trabalhava na delegação do Funchal da Direcção Geral de Urbanização, e ao vir a Lisboa em serviço aproveitei, visitei o Gonçalo como fazia sempre e dei uma volta com ele pela região afectada, não só na área  de Loures, como também  de Oeiras, Sintra, etc. Eram imagens dantescas de destruição dos cursos de água, das margens, o alagamento de terras férteis, os amontoados de destroços...
De novo em 1983 voltaram a acontecer cheias  colossais na região de Lisboa, já não tão trágicas como as de 67 mas ainda assim provocando uns 10 mortos, muitos feridos e muitos milhares de contos (contos em escudos...) de prejuízos.
Nessa altura fui eu nomeado pelo Secretário de Estado do Ambiente Engº Carlos Pimenta para Coordenador do Grupo de Trabalho para Estudo das Causas das Cheias, que reunia técnicos competentíssimos  do LNEC, da Hidráulica, do Serviço de Solos e outras Entidades relevantes.
Uma das primeiras acções que fiz foi ir visitar as áreas mais afectadas e lembro-me de ter ficado  surpreendido porque os piores desastres sucederam nos mesmos locais que já haviam sido destruídos em 1967 - quer dizer que não se tinha aprendido nada, tinham sido reocupados muitos dos locais que as cheias haviam atingido anteriormente.
Cá fica para memória futura até porque não sei se hoje já se terá realmente aprendido alguma coisa ...







terça-feira, 26 de novembro de 2019

Porca miséria...
Há em Portugal uns 2 milhões e 200 mil cidadãos no espectro da pobreza, e 1 milhão e 700 mil  com rendimento mensal inferior a 500 €. Que país continua a ser este ?!! Tanta festa e foguetes para comemorar o défice  zero,  servem afinal para esconder esta realidade que nos devia envergonhar mais do  que ter uma dívida acima dos 60% ou um défice de 3 ou 4%. É o que faz estarmos nas mãos de contabilistas ( com o devido respeito pela classe ) desde Salazar - que também deixou as contas em dia mas o pais social e economicamente como talvez alguns dos mais velhos ainda se recordem...

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

25 de Novembro
Esta data é fracturante ainda hoje, mas passadas estas décadas a maioria dos portugueses que seja democrata pode evoca-la como sendo a garantia de, nesse dia, termos ultrapassado uma fase transitória se bem que épica da revolução e entrado numa  fase de, digamos,  rotina democrática,
Quando se deu o 25 de Abril eu já conhecia, além da Espanha ( que estava tão ou mais subjugada que nós a uma ditadura fascista) a França e a Alemanha. Neste último pais vivi largos meses por duas vezes, e aqui e na França eu reconhecia  regimes democráticos como o que queria viver  na minha terra.
 Aqueles meses tremendos de 74 e de 75 foram para mim uma época de euforia, de vivência e arrebatamento, era o combate pelas ruas entre modelos e ideologias que só em democracia se podiam viver assim. Como Chefe de Gabinete do Gonçalo Ribeiro Telles, ali no Terreiro do Paço, sentia quase diariamente o pulsar da revolução e uma coisa se ia  enraizando em mim : era a certeza de que chegaríamos ao estatuto de democracia, sem ser "orgânica" ou "proletária", apenas democracia "tout court", burguesa como lhe chamavam os marxistas ( muitos deles marxistas  de última hora que mal as coisas serenaram voltaram ao seu estado natural de burgueses empedernidos e de direita - ainda aí estão  e é claro que não vou citar nomes...).  Ribeiro Telles é monárquico e eu sempre fui republicano, e a estreita ligação que ele sempre manteve comigo revelava-me como é que deve ser um democrata - nunca precisei de votar no PPM para ser o seu mais próximo colaborador, amigo de confiança e divulgador das ideias que eram também as minhas sobre o território, o Ambiente, a democracia... Só eu sei quanto lamento hoje em dia já não ter o velho Gonçalo em condições de falar comigo destas coisas, como fizemos durante anos a fio!!
Nesse Verão quente de 75 vivemos em ebulição o "movimento dos nove", pois o nosso vizinho Secretário de Estado, porta com porta, era o hoje General Garcia dos Santos, que fora encarregado de levar o "documento dos nove" a assinar pelas diversas unidades militares do país. Como naquela altura efervescente se desconfiava de toda a gente, em vez de comunicar para o seu gabinete de Secretário de Estado, combinou com Ribeiro Telles que à medida que as Unidades fossem aderindo comunicava para o nosso Gabinete. Ainda aí estão o Luis Coimbra ( único monárquico assumido do gabinete) e a Maria Elvira para o confirmarem. Foi um risco, se os radicais que levariam ao 25 de Novembro tivessem levado de vencida a sua  acção, nós estaríamos em maus lençóis. Havia sido um alívio quando vimos em Julho, salvo erro, pois não recordo o dia mas que se pode confirmar consultando a imprensa da época) o Jornal Novo, numa segunda tiragem ao fim da tarde, tornar publico o tal documento que os militares do movimento ingenuamente tinham entregue a Costa Gomes e a Otelo Saraiva de Carvalho. 
Quando se dá o golpe chefiado por Ramalho Eanes, eu e o Gonçalo estivemos em Belém na rua, entre a multidão, a assistir à chegada dos comandos de Jaime Neves e assustámos-nos com os tiros disparados lá de dentro. ( O Gonçalo ia de boné na cabeça, dizia ele para passar mais despercebido...).
O 25 de Novembro repôs a democracia e ainda hoje se comemora e elogia Ramalho Eanes, com quem tenho excelentes relações, e Jaime Neves cuja integridade e serenidade foram fundamentais; mas esquecem-se sempre de recordar o homem que, por trás, na sombra, esteve afinal sempre à frente de toda aquela estratégia : Ernesto Melo Antunes. Já  por umas duas vezes, em correspondência com o "nosso General" Eanes, eu lhe disse que ninguém quer assumir a iniciativa de uma homenagem nacional a Melo Antunes.  Sem a divulgação publica do texto, os envolvidos seriam facilmente silenciados pelo Copcom e ninguém daria por nada...
Talvez se recordem alguns de, na noite do 25 de Novembro, quando se começava a erguer uma onda direitista que queria a ilegalização do PCP e de todos os esquerdistas, ter aparecido na Tv o Melo Antunes a dizer, com a sua calma habitual, que numa democracia plena o PCP não seria ilegalizado pois nela tinha lugar, como qualquer outra formação ideológica, desde que se respeitassem as regras do Estado direito democrático. Foi essa coragem e esse desassombro que fizeram engulhos a muita gente, (até entre os socialistas...) pelo que nunca lhe deram a honra e o lugar de gratidão a que Melo Antunes tinha direito por valor próprio.
Não costumo encher a boca com amigos importantes quando apenas são de relação pouco próxima, mas posso dizer com absoluta  verdade que fui amigo e grande admirador do Melo Antunes, desde os tempos de Alferes, na Bateria de Belém, em Ponta Delgada - por isso nunca deixarei de insistir na justiça que representaria o reconhecimento nacional duma personalidade que  foi, desde o início, a grande alma do Movimento das Forças Armadas .
O 25 de Novembro de 1975 foi, para mim, a cúpula do movimento de conquista da democracia que nos permitiu romper com o velho e caduco Estado Novo, que inevitavelmente tinha de suceder - e sucedeu  de forma exemplar - após a  "explosão" também inevitável do 25 de Abril de 74. Neste, as únicas mortes foram devidas aos agentes da PIDE que das janelas do seu quartel dispararam sobre o povo desarmado que os esperava cá fora; e neste evento de Novembro as únicas mortes foram provocadas pelos militares que dispararam na Calçada da Ajuda contra os militares dos Comandos que não chegaram a dar um tiro. Os extremistas dão sempre estes exemplos.