sábado, 24 de junho de 2023

 Cada dia sua novidade

Cada dia saem  notícias do mais diverso teor, sobre tudo e mais alguma coisa como diria o Ricardo Araújo Pereira...

Rússia / Ucrânia - Estas notícias sobre a rebelião do grupo Wagner para já deixam muitas interrogações.  mas uma pergunta devemos fazer:  que grande potência militar é esta Rússia que paga a bandos de mercenários, que vão recrutar os seus soldados às cadeias, para lutarem pelo País? Isto é próprio de uma grande potência? Alguém admite sequer que quer a China quer os EUA fizessem este tipo de contractos com bandos armados?

E o chefe do Wagner, soldado experimentado e que está sempre na linha da frente, ia meter-se num golpe destes sem mais nada? Sem saber que tem apoios  ou sem falar com quem lhe desse apoio entre as forças armadas russas?

Ou prova que o Putin não é assim tão bem querido na Rússia, há-de haver muita gente que não pode falar, obviamente, e que vê chegar milhares de caixões com  mortos na guerra, que a leva à conclusão que o discurso de Putin sobre as vitórias na guerra é falso.

E agora ? os nossos amigos comunistas ocidentais e "pacifistas" que tanto apoio dão aos  russos, que apelam todos os dias à paz  mas não são  capazes de dizer à Rússia, que começou a guerra : pare e retire as tropas para chegar a paz...É o dizes !

A Rússia, é cada vez mais claro, sozinha será um pais grande e importante mas nunca será uma grande potência; a China os EUA, a Índia que vai engrossando a voz, serão dominantes. A Rússia só foi grande quando espezinhou uma dúzia de países sob  seu jugo,  com a fantasia da democracia popular.

E por isso é que caiu na esparrela de invadir a Ucrânia, ( fiada na inactividade internacional quando em 2014  conquistou a Crimeia) dando esperanças a todos os comunas e similares que voltaria a repor o seu império; gente que,  ao ter que escolher entre o imperialismo americano que apesar de tudo os deixa falar à vontade e não os persegue, e o imperialismo russo que esmaga quem quer que se atreva a manifestar-se contra. preferem este que lhes trás a saudosa memória da URSS à qual todos se sujeitavam, com amor!!

É que, se a Rússia conseguisse derrotar a Ucrânia, mais nenhum país da antiga URSS, e hoje independente, se sentiria seguro, qualquer deles seria o próximo objectivo.

A denuncia da NATO, que parecia acertada por ser um resquício da velha guerra fria, acabou por virar o feitiço contra o feiticeiro: todos os países à volta da Rússia querem entrar para a NATO, Putin fez mais por isso que todos os americanos e europeus militaristas!!

Grande ansiedade para ver o que isto do Wagner vais dar; se não foi também uma encenação - não se notam grandes movimentos  de tropas e veremos se chegam a enfrentar-se ou se deixam cair o embuste mais cedo.  Não se pode brincar com o fogo.








domingo, 18 de junho de 2023

 Depois de uns dias de intervalo  ao fim dos quais  voltei ao "mundo dos vivos", lá vão mais uma linhas


Os incêndios de 2017

Então é aberto um Memorial às vítimas dos escandalosos incêndios de 2017, no Pedrógão, no dia em que eles ocorreram, e não há inauguração por nenhuma autoridade? Nem Governo nem Presidente da República (diz que  não recebeu qualquer comunicação sobre o assunto!!).

O Memorial foi obra da IP do Ministério das Infraestruturas - e  abre-se assim? O ministro não combinou nada com o primeiro ministro nem com os outros membros do Governo? Será mais uma argolada do famigerado e famoso Galamba? 

Agora vem uma ministra lamentar o mal feito, chorar lágrimas de crocodilo,  bradar aos céus a consternação do Governo por mais este deslize "imperdoável" e garantindo que vai haver uma inauguração oficial com toda a pompa, sim senhor, não se sabe é quando, mas é em breve... Enfim mais  uma peripécia de pouca vergonha  que revela o desgoverno do Governo. António Costa, assente na sua maioria absoluta, está-se nas tintas para o País e para os outros políticos.  Só teve tempo foi para desviar a rota do avião oficial em que ia á reunião europeia  na Moldávia e parar na Hungria, onde o aguardava o magnífico  amigo Orban para assistirem a um jogo de futebol, lá porque o Mourinho era um dos intervenientes.  Pode acreditar-se?

 Eu devo ter sido um dos que primeiro se  manifestou contra os malefícios que aí viriam  de uma maioria absoluta do PS ( ou de outro qualquer)- e estava cheio de razão

A democracia em risco

É assustador o caminho que está a ser percorrido pela extrema direita europeia, chegando ao Poder em países onde isso pareceria impossível de vir a acontecer. Pois além da Itália com o seu passado fascista, na Polónia onde se devem ter esquecido do "Solidariedade", na Hungria que apoia a Rússia  contra a Ucrânia  e onde já se esqueceram do que os russos lhes fizeram em 1956  - mas  agora na Finlândia, na Suécia ?É grave demais para ficar por aqui, hei-de voltar a dedicar mais tempo  e algumas congeminações sobre este tema dos riscos em que estão as democracias. É muito grave.





segunda-feira, 12 de junho de 2023

 Como as coisas correm...

A crise de aridez do sul de Portugal

Tem chovido alguma coisa sobretudo no Norte e Centro, mas abaixo do Tejo - cada vez mais fronteira natural que divide o País em dois -  a aridez prossegue, a seca é gravíssima e eu que já aqui moro, em pleno barrocal, há uns 35 anos, apanhei algumas séries de secas mas não creio ter vivido uma tão acentuada com o este ano.

A flora natural está em stresse hídrico, até aqui no meu terreno que sempre foi agricultado  e por isso é mais profundo e fértil que as encostas desta sub-região. Como exemplo, uma pereira brava (Pirus bourgaeana) que transplantei para aqui com cera de 1 m de altura, já tem uns 5 m e todos os anos produzia à volta de uma dúzia de pequenas peras; o ano passado deu apenas 5 e este ano não deu nada.


A crise das nossas democracias liberais

As nossas democracias,  já tenho reflectido bastantes vezes sobre isso, são liberais porque vêm do combate contra o absolutismo mas não são forçosamente liberalistas e  pelo menos têm conseguido sobreviver às arremetidas do neoliberalismo dos mercados desregulados. Apesar das constantes medidas que quer a UE quer os EUA têm imposto, cláusulas liberalistas que afectam a verdadeira escolha democrática das populações ocidentais.

A nossa democracia é exigente e difícil de funcionar porque os entraves surgem constantemente e são necessárias populações muito bem enraizadas no conhecimento dos seus direitos liberais  para saírem vencedoras. Há uma crise de populismos que invade cada vez mais sociedades mesmo na Europa onde se poderia esperar uma maior resistência - mas as pessoas cansam-se das falhas, da corrupção ( como se nos regimes  autocráticos a corrupção não fosse ou não seja ainda  maior). 

Eu sempre receei os resultados desta maioria absoluta do PS em Portugal e parecia que adivinhava; as poucas vergonhas têm sido tantas que até as políticas de alguns ministros mais eficazes e consensuais passam despercebidas;  a arrogância de A. Cosa está a ser altamente prejudicial para a imagem da democracia portuguesa pelo menos cá dentro,  e por isso os populistas de direita apanham o descontentamento dos mais desfavorecidos e aumentam a gravidade das falcatruas  que surgem todas as semanas.











domingo, 28 de maio de 2023

 

A Agricultura no Ordenamento do Território


Pela nossa formação académica – dirijo-me aos arquitectos paisagistas -  , um dos aspectos a que sempre se deu a maior importância foi o do lugar da agricultura, bem como das pastagens e das matas e florestas no ordenamento do território.

Vem desde a Antiguidade esta importância: os gregos no ordenamento da polis, a cidade-região auto suficiente, consideravam  chora (  campos cultivados),  eschatia ( pastagens) e asty ( área urbana que incluía a acrópole) já que as florestas tinham pouca relevância  na Grécia ; e chegou até nós o direito romano que, no seguimento da herança grega, considerava a conhecida trilogia ager- saltus - silva- e depois o paul.

 Aproveito para  lembrar que o Ordenamento do Território foi lançado em Portugal pelos arquitectos paisagistas   Faz parte da nossa formação, em todo o Mundo, aquilo a que chamávamos e praticávamos como ordenamento paisagístico; e foi quando o Arqº Gonçalo Ribeiro Telles esteve como  Secretário de Estado do Ambiente, em 1976, que se deixou de usar  essa designação de ordenamento paisagístico para ordenamento do território, com a intenção de dar ao conceito um âmbito pluridisciplinar e interprofissional.

O ager é a peça  fundamental para a vida das populações e só por si determina muito da história de cada povo ou nação, já que se dirige ao mais essencial, a alimentação, a sobrevivência. Historicamente quando um território não tem espaço agrícola suficiente para sustentar a população que nele vive, obriga essa população à conquista de outros espaços. Foi o que fez Castela em relação com a Península Ibérica. A Grécia, pela penúria de solos e pelo relevo acidentado que ali domina, foi obrigada a procurar nas colónias essa subsistência e o litoral da Líbia  que visitei demoradamente ( a Cirenaica e a Tripolitana,) foram, o seu celeiro.

Esta importância da agricultura no contexto de cada país perdurou ao longo dos últimos  séculos – refiro-me em especial  ao ocidente europeu.

Na  idade contemporânea, na era Industrial, desfez-se  a tradicional relação cidade-campo que foi perdurando desde a Antiguidade, sobretudo nos países meridionais onde as duas realidades se completavam e até se interpenetravam fisicamente.

Nós sabemos, no caso português, como a ruralidade e o mar foram a base da portugalidade, até esta se começar a desagregar. E quando o Jacinto, da “Cidade e as Serras” descobriu com assombro para a sua urbanidade requintada, os encantos do arroz de favas e do vinho tinto em caneca de barro, feitos na aldeia, é o Eça de Queiroz a dar-nos conta de como essa interpenetração dos dois mundos já nessa altura se começava a deteriorar.

O nosso erro enquanto país e enquanto as governações que temos sobretudo nas últimas décadas foi ter -se desprezado  a capacidade produtiva dos nossos campos, por não se ter resistido às pressões mercantilistas e de aproveitamento de subsídios para deixar de lado a nossa capacidade produtiva, permitindo um desordenamento do território  lançado  aos  desvarios da especulação fundiária. 

Apenas as grandes explorações de carácter industrial passaram a merecer apoios, na mira produtivista duma agricultura industrial que deixou de lado milhares de pequenos e médios agricultores, de norte a sul. Como escreveu o Prof. António Covas, (para os que o não conhecem ele não é paisagista, mas Prof. Catedrático de Econonia), “o erro foi considerar a agricultura uma indústria”. E hoje estamos a importar para comer muito daquilo que podia ser produzido cá.

Se com o Ordenamento do Território se pretende que a cada parcela do território seja atribuída uma função de acordo com as características de cada espaço, a primeira obrigação de uma análise qualitativa do espaço biofísico é  determinar a aptidão de cada um desses espaços. A noção de aptidão é fundamental para um ordenamento equilibrado do território se considerarmos que este é um instrumento apoiado cientificamente para possibilitar a boa governação do espaço nacional. Aptidão agrícola, aptidão florestal, aptidão para o recreio, aptidão para exploração mineira ou de inertes, etc

Quando falamos de aptidão agrícola referimo-nos à capacidade de uma dada parcela do espaço biofísico para produzir em agricultura em termos de rentabilidade, e ela tem a ver com os solos, a disponibilidade em água, relevo e geologia, e o clima ( que pode ser o mesmo para bons ou maus solos).

O adequado reconhecimento da agricultura no contexto do ordenamento pressupõe uma política agrícola que entenda a relação ecossistémica da exploração dos solos com o equilíbrio da Natureza em sentido global.

A agricultura foi o principal agente de transformação da paisagem e dos solos, obrigando a uma mais funda intervenção que, por exemplo, o pastoreio.

Daí que agricultura e pastagem devam ser considerados os principais factores da construção das paisagens, embora o sector florestal também deva ser encarado como parte da solução para o equilíbrio dos sistemas agrários.

O crescente aumento da população mundial obriga a uma produção cada vez maior de alimentos a partir da terra; a estimativa oficial atira para 9 biliões de pessoas em 2050.

Perante este cenário o que mais apetece afirmar é que é preciso intensificar a agricultura, como se tudo dependesse de colocar mais adubos químicos e pesticidas a baixo preço nos mercados, partindo do princípio que o suporte, o meio dessa intensificação – o solo-  aguentaria todos os excessos .

Essa ilusão custou caro a muitas regiões e países, e se o Sahael é um exemplo, tão mau como isso foi o sucedido à volta do mar de Aral, no Uzbequistão, onde mete dó ver a tragédia que ali teve lugar. Realmente os solos, depois de envenenados ou exauridos, não recuperam senão ao fim de muitos séculos.

Hoje não restam dúvidas: trabalhos  de várias procedências nomeadamente alguns  publicados pelo CNRS em França,  revelam que a agricultura industrial intensiva atingiu o seu máximo de produtividade em meados do século XX; os rendimentos que antes aumentavam a cada década, estagnaram e em muitos casos já começaram a regredir

Ora o capital-sobrevivência é o solo; à agricultura industrial intensiva terá de se opor uma agricultura intensiva ecossistémica. Esta pressupõe um uso muito controlado de alguma adubação química, mas sobretudo o recurso a outras medidas, sejam as leguminosas, micorrisas, vermicultura, activação microbiana do solo e diversas tecnologias que não é aqui o local indicado para explanar.

Hoje em dia põem-se em confronto cada vez com maior acuidade a agricultura industrializada intensiva e a agricultura ecológica intensiva.É assunto que merece certamente um Seminário a ele dedicado.

Uma  certeza existe :   é indispensável rever os métodos de intensificação da agrocultura - as culturas agrícolas, a criação de gado e as matas.

E para caminharmos para uma agricultura ecossistémica temos de ter um ordenamento do território que dê a devida importância à defesa dos sistemas ecológicos vitais para o equilíbrio do espaço físico em termos biológicos.

Para uma agricultura compatível com o ambiente será necessário procurar culturas que se aproximem do climax ou o máximo de equilíbrio do meio, será necessária uma estrutura da paisagem que contribua para aumentar a biodiversidade que é condição indispensável parta essa aproximação paraclimácica .

Para dispensar ou pelo menos reduzir os tratamentos fitosanitários químicos será preciso aumentar a imunidade natural das culturas,  através da sua diversidade genética e  específica, manter a cobertura permanente do solo  e a capacidade de competição entre as culturas, eliminar os resíduos tóxicos, etc

A própria mobilização do solo tem de ser feita de acordo com a textura dos terrenos, evitando as grandes mobilizações que foram, durante décadas, propagandeadas pela indústria das máquinas agrícolas.

 A este propósito recordo que já nos anos 50 do século passado o Prof Manuel Gomes Guerreiro propunha a mobilização mínima do solo, evitando que as camadas profundas inertes fossem trazidas á superfície, enterrando as camadas superficiais que são as verdadeiramente produtivas.

Nessa altura, como recordou o Prof. Ário de Azevedo, ele foi atacado por ter propostas daquelas que iam contra a agro-indústria dominante; pois 50 anos depois foi realizado um Doutoramento em que se concluía que a mobilização mínima do solo deve ser a prática adequada na maioria dos nossos solos de pouca profundidade, dando razão ao velho Mestre –  mas por serem solos menos profundos não são inaptos para a produção, têm é que ser trabalhados e auxiliados correctamente.

Os solos agrícolas não são apenas os da classe A e B, excluindo os outros. Há solos classificados como C que são altamente produtivos, só por terem por exemplo pedra solta a mais não são  qualificados.

A crise actual vem demonstrar que um pais sem agricultura está votado a maiores dificuldades de sobrevivência tendo de angariar o que precisa para subsistir.

Parece que começa agora a ser consensual que é preciso voltarmos á agricultura depois de  em  décadas recentes  ter-se forçado o abandono das explorações  a troco de subsídios, retirou-se dignidade e o apoio agricultores onde só os grandes agrários teriam direito a continuar, desmantelaram-se ( nunca me cansarei de denunciar) os Serviços de Extensão Rural porque o Estado deixou de ser  parte activa no incremento das actividades agrícolas – e hoje se queremos atrair gente nova para o sector da produção agrícola  não há serviços técnicos de campo capazes de darem esse apoio.

O ordenamento do território tem de saber reequilibrar os ecossistemas naturais ou paraclimácicos com a produção agrícola e o pastoreio, pelo que instrumentos como a Reserva Agrícola Nacional e a Reserva Ecológica Nacional são fundamentais. No entanto não é o que está a acontecer actualmente.

Com uma nítida subalternização da politica de Ambiente e a desvalorização da importância da REN está a dar-se oportunidades aos especuladores de terrenos e a técnicos produtivistas e  oportunistas, e algumas autarquias ávidas de construção seja lá onde for. Quando por todo o Mundo, e muito especialmente na Europa, se começa a dar cada vez maior relevância a práticas agrícolas conducentes ao equilíbrio com os ecossistemas naturais, para onde apontam as novas medidas da PAC,  em Portugal, reagimos ao contrário. `Para mim são os estertores de uma sociedade arreigada a um status quo   que não quer perder os seus privilégios.

O OT deve incorporar todas as preocupações com o ambiente e com uma agricultura ecologicamente apoiada, integrando, melhorando ou recriando os ecossistemas naturais  que fornecem contribuem para a salubridade ambiental e suportam o equilíbrio do território. Separar o OT do Ambiente é criar o paraíso para o descalabro biofísico do nosso país.

E quase ninguém protesta

 

sábado, 27 de maio de 2023

 O embuste desta Política de Ambiente

- o espaço-território-paisagem em perigo -

Quase ninguém reagiu às alterações introduzidas na orgânica do Ministério do Ambiente, quando lhe foi retirado  o Ordenamento do Território (OT), sem uma explicação. Mas há medidas que, com o  desenrolar do tempo, dão sinal das consequências  que causam.

Surgem várias Autarquias a quererem  desrespeitar a REN e a RAN por serem obstáculos ao seu desenvolvimento  urbanístico, quer dizer estamos a regredir para aquele  tempo em que o mais importante eram os quilómetros de estradas alcatroadas e o boom de avenidas, prédios e infra-estruturas como  sinal  do sucesso de expansão das cidades sobre os seus arredores. Todos sabemos que historicamente as cidades foram edificadas em áreas de maus solos mas sempre  junto de zonas de bons  solos cultiváveis; com  o  progresso da financialização capitalista da economia nos tempos modernos, década após década, o crescimento urbano foi levando à ocupação de áreas eminentemente de produção agrária, despoletando nos governos de alguns países, mais evoluídos em termos de conhecimento dos limites do crescimento, a necessidade de tomarem  medidas de contenção e ordenamento urbano-rural.

Ainda no século XIX nos EUA e na Grã Bretanha vários famosos arquitectos propuseram  diversos esquemas para  um crescimento urbano compatível com a conservação do mundo rural indispensável  a um ordenamento correcto da Biosfera, depois sucederam algumas acções nesse sentido noutros países como Alemanha e França. 

Já no século XX na Alemanha, pelos anos 70, a região urbano-industrial do Rhur impôs um programa de orientação da expansão urbana ( em que eu tive o privilégio de  participar durante uns meses) criando áreas-corredor de terrenos rurais a separarem os grandes aglomerados citadinos,  para impedir a sua concentração; a expansão urbana foi regulada para espaços de menor importância  agrícola e ecológica. Depois de Abril de 74 Portugal aproximou-se desta visão holística da Conservação e do Ordenamento.

A Reserva Ecológica Nacional (REN) e a Reserva Agrícola Nacional RAN) tem sido a expressão portuguesa da política ambiental e têm permitido manter o ordenamento do espaço-paisagem em termos de relativo equilíbrio. Mesmo quando esses valores existem em áreas que ficam encaixadas no espaço urbano,  devem continuar a ser preservados com os mesmos objectivos: podem ser parques públicos ou mesmo áreas de hortas urbanas de tanto impacto social e económico; durante a última grande guerra os parques de Londres foram cultivados para apoiar a alimentação.

A confusão propositadamente mantida entre sociedades liberais e o liberalismo  económico-financeiro continua sub-repticiamente a controlar as politicas mesmo dos governos, como o português, que se diz da esquerda social democrata.  O valor financeiro do espaço em termos de mercado continua a sobrepor-se ao valor social e colectivo do mesmo espaço prejudicando a população, sobretudo a mais desfavorecida que não pode entrar no negócio dos terrenos. 

É que, como continua a dizer o patético   Francis Fukuyama,  as pessoas acabarão por voltar ao liberalismo: sempre foi assim desde  século XIX. Eu digo que é como a hidra que quando lhe cortavam uma cabeça nasciam outras, e apesar de ridicularizado com o seu "Fim da História", ele continua a confiar na fraqueza institucional das doutrinas da esquerda democrática e  social que vergam ciclicamente sob o peso dos mercados. A persistência do neoliberalismo assenta nessa fraqueza de convicções de quem diz defender a coesão territorial  e os grandes valores da vida no planeta.

Nós até temos por cá a institucionalização da coesão territorial que,  para o ser, precisou de ir buscar o OT ao Ambiente  retirando-o  da componente da Conservação que é indispensável para dar consistência às intervenções no território-espaço-paisagem.   

Como pensei que tinha ouvido mal da primeira vez, a ministra repetiu,  ao dizer a propósito de construir mais uma estrada asfaltada para a Serra  da Estrela, que era preciso "humanizar" a Serra.  A senhora  esqueceu-se propositadamente ( não creio que seja por ignorância)  que a razão principal para se ter criado o Parque Natural  foi por aquela Serra ser uma magnífica  paisagem humanizada - mas humanizada  não devia querer dizer  que precisa de mais estradas asfaltadas  para levar mais multidões aos sítios onde poderiam e deviam ir calmamente visitar ambientes naturais - é um contra-senso neoliberal. 

Para "tirar partido de toda a riqueza paisagística e de todo o património da Serra da Estrela" ( como de tantos lugares magníficos que ainda resistem por esse país fora) não é necessária mais uma estrada asfaltada - mas este é o retrato perfeito da mentalidade que hoje continua  a ser a de muitos dos responsáveis, a vários níveis, pelas políticas  ambientais, de coesão e de gestão territorial onde, para lá da retórica, falta que essas políticas sejam   pensadas  e executadas em termos de sustentabilidade e perenidade dos ecossistemas. 

Não faltam exemplos do paradoxo entre a retórica "verde" e as acções concretas feitas ao abrigo do amplo chapéu ambiental. 

Um dos mais significativos e que devia estar a merecer  a luta nas ruas, se tivéssemos uma massa crítica alargada, é o da destruição de vastas áreas florestais ( incluindo  sobreirais) para implantar parques de painéis solares com a grande afirmação de que se vai produzir energia limpa. Isto faz parte da  falta de coesão  territorial e  do desrespeito pela REN e pela RAN e não passa de desfaçatez com que se afirma uma patranha.  

Como também sucede com a destruição dos importantes charcos temporários da zona húmida das Alagoas Brancas em nome do direito de propriedade que, se este é importante como  valor da sociedade liberal ( mas não liberalista) não devia  ser  mais importante que o direito da coesão social  e ecológica do espaço-paisagem.

Estamos a receber um embuste como Politica de Ambiente e com ele o descalabro do sector agro-florestal e do desordenamento da nossa paisagem que se afirma, politicamente, querer transformar para requalificar - transformada lá isso está a ser mas para uma situação de  cada vez maior precariedade. Assim não vale, não brinquem mais com a gente vendendo patranhas para encobrir uma visão liberalista da sociedade e do nosso espaço-território-paisagem!!






 




terça-feira, 23 de maio de 2023

 Imperialismos

Desde que me conheço que estive sempre mobilizado contra os excessos que década após década, o imperialismo americano ia perpetrando pelo mundo fora.  Mas não me lembro de ver manifestações contra os excessos idênticos ou piores  que o imperialismo soviético -  e agora "apenas" russo- também foi cometendo.

Há um, que pouca gente parece conhecer, que foi talvez o maior desastre ambiental provocado deliberadamente pela humanidade : a destruição do Mar de Aral. Eu andei pelo Uzbequistão e vi e falei com as pessoas: durante décadas de submissão do país ( e dos países vizinhos Turquemenistão,  Azerbaijão, etc - e faltou o Afeganistão  que bem tentaram mas saíram de lá derrotados e com  rabo entre as perna) os grandes agrónomos russos impuseram a cultura intensiva e regada do algodão.  Desviaram rios, implantaram redes de rega e quando saíram de lá com o desabar da URSS, deixaram o Mar de Aral reduzido a uma poça de água, milhares e milhares de hectares de solos desertificados, carcaças de barcos a apodrecerem no que antes era o leito do Mar - uma desgraça ambiental que deixou muitos milhares de pessoas sem trabalho nem modo de vida.

Mas em termos de imperialismo russo  aqui vai uma extensa ( possivelmente nem completa) lista do que foi a actividade imperialista russa para dominar outros povos e países. A agora admirem-se  de ter sido a própria Rússia a ter estimulado a adesão de novos membros para a NATO, que estava em baixo de forma. Olhem para esta lista e percebem porquê...

  1. guerra de independência da Letónia, 1918-1920
  2. Guerra polaco- russa 1919-1921
  3. anexação da Ingria finlandesa 1919-1920
  4. invasão e ocupação do Azerbaijão, 1920
  5. Invasão e ocupação da Arménia, 1920
  6. invasão e ocupação da Geórgia. 1921
  7. repressão da Karélia, 1921-1922
  8. instalação do gulag na Sibéria ( campos de educação), 1923-1961
  9. deportação dos Ingrios finlandeses, 1924-1944
  10. Holodonor, Ucrânia, 1932-1933
  11. Guerra de Inverno, tentativa de invadir a Finlândia, 1939-1940
  12. Massacre de Katyn, 1940
  13. ocupação da Bessarábia e Bucovina do Norte, 1940-1941
  14. Razia da insurgência da Tchetchénia, 1940-1944
  15. Guerra da continuação, 2ª guerra contra a Finlândia, 1941-1944
  16. Deportação dos gregos Pônticos, 1942-1949
  17. Deportação dos Calmucos, 1943
  18. Operação militar especial Lenil (limpeza étnica na Tchetchénia e Inguchétia
  19. Deportação dos Tártaros da Crimeia, 1944
  20. deportação dos Turcos Mesquécios, 1944
  21. Deportação dos Bálcaros, 1944
  22. Ocupação da Roménia, 1944-1958
  23. Oposição ao Plano Marshall, 1948-1951
  24. Repressão de Berlim e Alemanha de Leste
  25. Massacre de 9 de  Março, Geórgia, 1956
  26. Massacre dos protestos de Pozdam (Polónia), 1956
  27. Intervenção na Hungria. 1956
  28. Aniquilação dos Irmãos da Floresta, Países Bálticos, 1945-1956
  29. Massacre de Novocherkassk (Rússia) 1962
  30. Repressão das manifestações de Yerevan, Arménia,  1965
  31. Operação militar especial "Danúbio"- invasão da Checoslováquia, 1968
  32. Repressão dos Protestos de Dezembro, Polonia.. 1970
  33. Repressão da Sublevação da Lituânia, 1972
  34. Repressão dos Protestos de Junho, Polónia, 1976
  35. Repressão do levantamento na Geórgia, 1978
  36. Invasão do Afeganistão ( a tal..) 1979-1989
  37. Lei Marcial na Polónia, 1981-1983
  38. tragédia brutal do 9 de Abril, Geórgia. 1989
  39. Tentativa de esmagamento da Revolução Romena, 1989
  40. Laneiro Negro no Azerbaijão, 1990
  41. Primeira guerra na Tchetchénia, 1999-1009
  42. Segunda guerra na Tchechénia, 1999-2009
  43. Guerra no Daguestão, 1989
  44. Luta na guerra civil da Inguchétia, 1999
  45. Invasão e anexação da Crimeia, 2014
  46. Intervenção no Donesk (Ucrânia) , 2014
  47. Operação militar especial- invasão da Ucrânia, 2014, 2022

Ficam de fora as ocupações depois da 2ª Grande Guerraprolongadas para muito depois das ocupações dos países aliados ocidentais.

Portanto quando falarmos de imperialismo convém ser abrangente e falar não apenas do americano ( que apesar de tudo  nos deixa liberdade de expressão e fazer oposição livremente com responsabilidade) mas também falar do russo, que envenena, mata a tiro, mete na cadeia quem quer que fale contra o governo ou defenda a suas ideias. É crime de lesa Pátria, como dizia por cá o nosso "Botas": só  Deus, Pátria e Família -  que hoje alguns querem renascer.

Portanto eu que nem sequer sou apologista 100% da NATO, que gostaria de ver a unidade europeia em volta da democracia de que gozamos, percebo por esta lista de atrocidades, a importância que os países limítrofes da Rússia dão  a sua adesão a uma organização que garante a democracia, e que os defende da fúria imperialista e bruta dos russos, que outra coisa não conhecem. século após século, senão a submissão dos milhões de pessoas á ordem de um czar  e de uma minoria de latifundiários  e agora do novo czar peralvilho e dos  oligarcas que vivem dos negócios em todo o mundo e que não querem  mudar -é o mudas!1

Minorias ocidentalizadas , intelectuais e com ideias de democracia "à ocidental" representam uma minoria . não se exporta democracia como quem exporta minério ou electrodomésticos. A democracia  que alcançámos no Ocidente e hoje se pratica em países e povos evoluídos na Ásia,  na Austrália, um pouco (muito pouc0) em África, é um luxo, todos a invejam  e muitos a usam para a destruir por dentro - não é preciso dar exemplos.

Quando se deu a revolução bolchevique de 1917 os trabalhadores rurais ainda era servos da gleba  como na Idade Média -  isso diz tudo, não ? quando se visita  S. Petersburgo percebe-se, ao ver aqueles milhares de palácios, porque é que foi ali  que rebentou a revolução dos  bolcheviques.

A Rússia actual, com a sua prosápia de grande potencia mundial - mas com a vergonha de ter de recorrer ao contracto de hordas de mercenários para fazerem, a guerra em nome da Pátria ( e estabelecendo o terror em vários pontos do mundo), esta Rússia não suporta ver-se rodeada por países que não querem nada fazer parte da sua área de influência, querem é manter-se livres do jugo russo  e que, umas melhor outras pior, lá vão implantando e mantendo democracias muitas delas musculadas, mas não tão aterradoras como a Rússia  e a sua única  "aliada" Bielorussia. Daqui a estupefacção que é ver os "pacifistas de esquerda" que deviam por princípio ser contra a invasão de um país por um outro com regime de direita ditatorial insistirem no fim da guerra de uma só maneira : ainda não ouvi nem li nenhum deles dizer claramente à Rússia que pare os combates e retire as tropas com que invadiu a Ucrânia. Já os comunistas empedernidos têm tal ódio ao imperialismo ocidental que vêem em Putin, antigo dirigente do KGB e que já denunciou o fim da URSS como uma tragédia, venha a repor o seu regime de ditadura do proletariado com que sonham, como se agora os oligarcas e o próprio Putin, podre de rico quisessem voltar atrás - mas os comunas sonham com isso.

Lula da Silva que foi vítima de um regime de direita radical, agora que voltou ao de cima, mastigando a sua ideologia terceiro-mundista e tanto ódio aos americanos, que continua a contradizer-se todos os dias e não é capaz de condenar o Putin que é um exemplo dum Bolsonaro mas em grande. Pobre Lula, estraga o que de bom pode trazer ao Brasil

A única paz que estes pacifistas querem, lá vão dizendo (alguns) que condenam a invasão, mas querem que se deixe de dar armas aos ucranianos (negócio horrível  este, dos capitalistas e imperialistas americanos e aliados e é uma grande negociata, a gente sabe), porque assim os invadidos serão esmagados pelos bandos de mercenários russos  e ... eis a paz!

Ninguém pára a Rússia, e esta guerra em plena Europa no século XXI é insuportável porque anuncia  o que nos espera se ela ganhar - mais nenhum país da sua orla fica em sossego.


segunda-feira, 22 de maio de 2023

 Más lembranças de política...

Quando às vezes em documentários ou outro tipo de notícias televisivas aparecia  (ultimamente tem sido menos)o Salazar a falar. até me percorria um arrepio, lembrando aquelas aparições do ditador, com aquela falinha cheia de fífias, a dar conselhos ao povo.

Agora quem voltou a falar foi o Cavaco, e se ouvi-lo já era bastante autoflagelação, voltar a vê-lo, mesmo por poucos instantes,  então foi péssimo - palavras de ódio, sopradas com aquele tom irritante de quem está a comer um fatia de bolo com a boca cheia,  não é uma crítica que pode e deve ser feita mas com a elevação própria de quem já foi chefe de governo e até pasme-se ( eu ainda hoje me pasmo!!) Presidente da Republica. Mas depois de o voltar a ver  a falar com aqueles esgares de impressionante dureza que roça o ódio, é uma imagem que  não se apaga.

O Governo e António Costa merecem que lhes seja imputada toda a responsabilidade pelo inacreditável ridículo das situações criadas, é certo que os deputados da Comissão de Inquérito estão a deliciar-se e se puderem ainda aumentar mais  prazo, melhor - é um regabofe. Estão todos a desacreditar a democracia.

E Cavaco deve ao PS ter sido eleito 2ª vez para PR. Se o PS e Mário Soares não se tivessem atravessado à frente da candidatura de Manuel Alegre, em que eu me envolvi,  na 2º volta o Cavaco não ganhava. Mário Soares, que fez muito pela democracia e sofreu por isso ao longo do Estado Novo, tinha defeitos e um deles era a  vaidade: outro defeito eram os ódios de estimação que ele nutria por quem se atravessasse no seu caminho  E ele não devia ter feito aquilo contra um companheiro de estrada, seu amigo e militante ilustre- mas convenceram-no que seria o único PR com tres mandatos e ele foi atrás desse engodo. Foi uma data triste para a democracia portuguesa e  tivemos que gramar o Cavaco mais um mandato.

Ouvi entretanto a resposta de António Costa, dada uma rádio; sou um crítico  do sujeito pelo desvio que fez e continua a fazer em termos da politica portuguesa, e ouvi a melhor bofetada de luva  branca que o Cavaco podia ter recebido. É nestes meandros da política que ele se move como poucos, sabendo manter a distância institucional que mais lhe dá jeito e lhe dá ...mais aplausos