segunda-feira, 7 de maio de 2018

A polémica sobre um falado
Museu dos Descobrimentos

A ideia da Câmara Municipal de Lisboa de propor um Museu dos Descobrimentos lançou entre os fundamentalistas de esquerda  da História, como era de esperar, uma acesa polémica - e eu não consulto as redes sociais, onde parece que as coisas chegaram ao rubro. E digo fundamentalistas de esquerda da História porque é de entre eles que mais vezes se adiantam argumentos que  podem ser resultado da livre opinião - como é a minha - mas que ameaçam ser tão redutores que se tornam "impróprios para consumo".
Analisar a História de séculos atrás com a óptica da vida e dos comportamentos de hoje é tão absurdo como as verdades do Senhor de La Palice.
Fala-se por um lado  no termo "descobrimentos" como ofensivo, como se os portugueses se estivessem a apropriar de descobrirem outros  seres humanos que já existiam antes de termos chegado lá;  por outro lado fala-se na escravatura e  nas culpas dos portugueses nesse  negócio horrível de seres humanos. 
É claro que a "descoberta" é em função do conhecimento que se tinha ou não tinha do mundo, e isso também foi assim sempre, como o  Mare Nostrum  que  foi a adopção pelos romanos do Mar Mediterrâneo que não era todo deles mas que era o que eles conheciam e dominavam.
Quanto à escravatura , ela sempre existiu desde que há sociedades humanas organizadas, e os puristas de esquerda fariam bem voltar a ler Karl Marx e ver como ele situa a escravatura numa das fases da História da economia e da humanidade. Todos os povos do Ocidente e do Oriente, de todas as religiões, tiveram escravos  e mantiveram a escravatura algum tempo para lá dos portugueses.
Portugal ter de pedir desculpa por ter praticado a escravatura,  levaria a que outros aparentemente insuspeitos tivessem também que fazer o mesmo ; sabemos que os portugueses que negociavam os escravos não entravam por África dentro e arrebanhavam as filas de seres humanos - eram os sobas ou chefes das aldeias, mesmo os muçulmanos, que traziam até aos navios portugueses os pobres indígenas que vendiam e de que recebiam pagamento. Vai-se exigir aos sobas de hoje que peçam desculpas aos seus povos por os seus antepassados terem praticado aqueles actos ignominiosos?  
Vou contar uma pequena história : uma vez em que estive na ilha de Goreia, em frente a Dackar, a visitar o Museu da Escravatura, ouvi o guia falar do comércio dos escravos e apenas se referia aos portugueses como tendo sido os grandes obreiros desse negócio. Então eu perguntei-lhe, em voz alta,  já que era assim  porque é que no painel do Museu em que estavam os nomes dos principais negreiros, só havia nomes holandeses, ingleses, franceses e nenhum português? Ele ficou embaraçado, e depois ainda lhe disse que num outro painel com nomes de figuras importantes que tinham estado na ilha...só havia nomes de navegadores portugueses e até da futura D.Maria II quando veio do Brasil para casar em Lisboa. E o homem voltou a ficar embaraçado. E é assim que se faz "alguma" História...
Portugal foi até o segundo país europeu  a acabar formalmente com a escravatura no século XIX, portanto há muitos outros países que têm muitas desculpas a apresentar. Dito isto, quem me acusar de estar a desculpar a escravatura está de má fé, acho que era uma situação intolerável - mas à vista dos séculos em que todo o mundo a praticava, não era nada de  mais. A História é assim.
Eu sempre me interessei por Museologia, acho os museus muito importantes se forem bem concebidos, pois  os museus de hoje nada têm a ver com aquelas casas bafientas cheias de vitrinas com peças. Anda há dias propus a ideia de se criar um Museu da História e Identidade do Algarve, a ver se alguém pega nessa ideia.
Quanto ao Museu previsto pelo Presidente da Câmara de Lisboa, como cada cabeça sua sentença e eu também tenho a minha. E acho que ficaria fora de polémicas um Museu das Navegações Portuguesas, porque, estas sim, foram uma epopeia com bases científicas ( à época) e estratégia política genial que os portugueses lançaram, em pleno espírito do Renascimento, abrindo o mundo aos limitados conhecimentos dos europeus e levando "aos Orientes" o conhecimento da existência real e voluntarista de um pequeno povo que,  encurralado entre um país enorme e forte, o reino alargado de Castela, e o mar tenebroso, não teve outro remédio senão ir por esse mar fora.
E porquê em Lisboa ?  Não há já em Lisboa museus bastantes e até um circuito possível entre vários ícones dos Descobrimentos? Pois eu acho que um Museu destes poderia ficar muito bem na Ilha da Madeira, a primeira terra descoberta e que estava deserta de habitantes ( se o Porto Santo não protestar...).








Agricultura e Ambiente

Em Maio de  1991 participei no Forum Ecologista e Alternativo, que reuniu um grande número de pessoas ligadas aos temas do título e em debate, incluindo políticos como  Galvão Telles, Augusto Mateus, Helena Cidade Moura, Gonçalo Ribeiro Telles, Mário Murteira, Isabel do Carmo, etc. O que me leva a falar nisso é que aquilo que eu escrevi na comunicação que apresentei tem muito a ver com o que se passou daí em diante e é actual. Vou transcrever algumas passagens desse texto.
  "A importância da política agrícola nos problemas do Ambiente
Ainda não vi os ecologistas em Portugal tomarem posição inequívoca  sobre a evolução das questões agrícolas, que se erguem no horizonte a médio e longo prazo como grave ameaça para o equilíbrio ambiental e para as condições de vida dos portugueses.
Qualquer que seja a política agrícola que for incentivada ela tem reflexos directos nas condições ambientais e nas características culturais do nosso país.
Começa por ser necessário, a meu ver, desmistificar a noção propagandeada por quem nisso tem interesse, de que somos um país florestal ou de vocação florestal.
Desde há milénios que nesta velha terra habitada os homens derrubaram a floresta para implantar a agricultura e o pastoreio; só nos vales encaixados, nas galerias das linhas de água e nos sítios encharcados - os paúis - se manteve a floresta como sítio inóspito, refúgio de feras e de inimigos, mas com a evolução das comunidades locais até essas zonas acabaram também por ser arroteadas em grande parte.
Quer dizer que fomos sempre um povo de agricultores e pastores, depois também de marinheiros, mas mesmo neste caso nunca os homens do mar perderam a ligação às suas courelas.
Não tínhamos a tradição  de gestão de florestas tal como hoje se concebem, porque os bosques abertos da nossa flora mediterrânica eram diferentes na concepção e na gestão.
Se assim é, é porque tivemos sempre condições de solo e de clima para a agricultura e para o pastoreio; não teremos talvez, hoje em dia, condições para a grande mecanização que se utiliza nas planícies da Europa Central ou da América - mas temos condições para a pequena e média exploração, para a produção de qualidade por oposição à produção em quantidade da agricultura industrial. ...
Ora se as propostas para a agricultura feitas nas conversações do GATT (General Agreement  on Tarifs and Trade) em 1990, conhecidas por Uruguai Round, forem levadas às últimas consequências, teremos o descalabro da nossa agricultura e, de forma geral, da maior parte da agricultura europeia que cair nas mãos dos grandes impérios mundiais da produção e comercialização dos produtos agrícolas.
O que os interesses internacionais pretendem obter no GATT é a completa liberalização da agricultura, pressionando os diversos Governos europeus para abolirem as políticas proteccionistas aos agricultores.               ....    .....      ......................
A raiz agrícola das sociedades europeias não se extirpa como quem arranca uma erva daninha, e os agricultores  europeus exigem nas mesas de voto a sua protecção. Daí que muitos Governos europeus tenham oposto as maiores reservas às propostas da Política Agrícola Comum (PAC) que só na aparência se diferencia das propostas do GATT.  ............                ..........
Sem a atribuição das políticas de subsídios agrícolas, as pequenas e médias explorações que não possam incorporar-se em grandes explorações de carácter industrial, não têm possibilidades de sobreviver.   ........                ........
...a gravidade da situação que se cria para a grande parte da agricultura europeia com a aplicação das medidas de completa liberalização do sector é tão séria, que dificilmente os diversos Governos deixarão de agir em conformidade; no entanto impõe-se a pressão contínua dos agricultores  e dos ecologistas e ambientalistas para que os tecnocratas dos Governos não cedam às exigências dos de Bruxelas.           .....      ......
...para além dos aspectos importantes da produção de qualidade e da manutenção em funcionamento das pequenas explorações e da agricultura não industrializada, esta agricultura ( tradicional ) é responsável pela manutenção das paisagens e dos habitats rurais que representam vários séculos de harmonização entre o homem e a natureza.     .............                 .....
Sendo os terrenos abandonados por falta de apoio aos pequenos agricultores, ficarão expectantes e o seu destino é a arborização;  e aqui se projecta a outra ameaça ambiental, já que esses terrenos serão presa fácil das empresas de celulose  para arborização com espécies de rápido crescimento  como o eucalipto e a pseudotsuga.
..... Há assim um ameaça eminente ao Ambiente em Portugal se a nossa agricultura seguir as imposições externas, ameaça que se agiganta, como vemos, no que se refere ao nosso património natural. Mas sob o ponto de vista cultural a ameaça não é menor. "

E aconteceu mesmo, com a gravidade que sabemos  : sobretudo com os Ministros e Secretários de Estado da Agricultura e Florestas dos Governos de Cavaco  Silva assistimos às pressões sobre os agricultores para deixarem de produzir em troca de um subsídio e deu-se a expansão do "petróleo verde" ou seja dos eucaliptais, para uma escala que alterou profundamente a dinâmica dos ecossistemas e a qualidade das paisagens e dos habitats. E depois ardem como tochas em dias de festa!!
Vir dizer hoje em dia que os eucaliptos não são combustíveis como disse há tempos um holandês que nos veio dar lições, e alguns técnicos florestais de que não se viram fotografias de eucaliptos a arder... é brincar com o pagode.




domingo, 6 de maio de 2018

Eutanásia - o campo das confusões

Vou meter-me mais uma vez neste campo de confusões, umas involuntárias, outras nem por isso.
Os médicos têm uma palavra a dizer, é evidente, mas a discussão da matéria não é um assunto só médico ou especialmente médico - é um problema de consciência de cada um. E no Movimento pela Morte Assistida a que pertenço sempre houve e  há médicos.
Vem isto agora a propósito duma entrevista a um médico, António Maia Gonçalves, saída no Publico de ontem, 5 de Maio. Tem todo o direito a dizer-se contra a eutanásia se bem que ao longo das suas declarações haja cedências. Tem todo o direito de ter a sua opinião, só que os opositores ao acto impõem a sua opinião a todos, enquanto os que a defendem só a defendem para si, não impõem a ninguém, não querem  tornar a morte assistida ou a eutanásia obrigatória. Querem apenas ter o direito, com as devidas cautelas já por demais ditas e reditas, de pedir essa solução final.
Mas o entrevistado começa por dizer que  "não se pode banalizar a morte", a que pessoas como eu respondem que deve haver o direito a morrer com dignidade e decidir em consciência como quer acabar a sua vida.
Uma afirmação ; "se tenho um doente com 90 anos que tem uma pneumonia curável, não vou deixar de o reanimar por causa da idade" - mas o que é que isto tem a ver com a eutanásia ?  Frases desta só servem para aumentar a confusão, mistura alhos com bugalhos. A eutanásia só se poderá aplicar a pedido do doente e em caso de irreversibilidade do estado da saúde, nada tem a  ver com a idade, se bem que seja previsível surgirem mais situações irreversíveis nas pessoas mais idosas.
"Na dúvida, tratar sempre o doente", e mesmo que exista um testamento vital  que este médico acha que foi aprovado depressa demais. E diz que "desde 2012 apenas ocorreram  18000, é um número irrisório". Irrisório porquê, com tanta falta de informação, com a confusão permanente e especulativa de quem é contra ? A  mim acho que nas presentes condições  até é um número apreciável.
É o tal caso do copo meio cheio ou meio vazio...
"Um jovem diz : não quero ser ligado a ventilador nenhum, Mas se esse jovem entrar numa sala de emergência com uma pneumonia, acha que vou deixá~lo morrer?" Sim, se for essa a vontade expressa pelo doente e se a situação for irreversível, é sempre nesta situação extrema que se coloca a questão. Podia continuar  a analisar as afirmações do médico, mas fico por esta : "...3% das causas da mortalidade sejam actualmente por eutanásia na Holanda, Ora não me vão dizer que estas pessoas todas estavam em grande sofrimento". Aqui está a pôr em causa a seriedade dos colegas médicos holandeses, que são responsáveis pelo diagnóstico final do paciente. E assim não vale, senhor doutor !
Quanto a "será um fardo para as pessoas de idade se eutanásia for aprovada" é tirar ilações a seu bel prazer, eu que aqui escrevo sou "uma pessoa de idade" e  não sinto fardo nenhum ao querer a eutanásia, pelo contrário, espero que ela venha a ser aprovada: reaccionários ( sem ofensa, são os que reagem) a medidas avançadas sempre houve  e continuará a haver, E para terminar "...há 160, 170 países no mundo e apenas meia dúzia têm eutanásia.Há pilares fundamentais na sociedade e um deles é o direito à vida" - pois há e há meia dúzia de países que começam a proclamar o direito à morte com dignidade. É uma questão de tempo, sempre foi assim,  foi assim com tudo quanto se trata de  saltos qualitativos para uns e que os retrógrados não aceitam e travam enquanto podem.

sábado, 5 de maio de 2018


Em louvor da dieta mediterrânica

Qualquer dieta de um povo ou de uma região tem sempre o seu suporte na ecologia própria da área em que se desenvolve.
Fala-se muito da  dieta mediterrânica que se tornou   famosa a partir dos estudos do médico norte americano Ancel Keys, que no século passado estudou as relações da alimentação com a saúde em vários países do mundo. E constatou que a percentagem de mortes por acidentes cardiovasculares na Finlândia andava pelos 80% enquanto na ilha de Creta era de 4%. Chegou à conclusão que era do regime alimentar seguido e dos benefícios dessa alimentação.

O Mediterrâneo, o Mare Nostrum dos romanos, é uma região privilegiada em termos de Ecologia e em termos de Humanidade.

Esse mar  formara-se, tal como outros mares  da região,  como resultado do desaparecimento do primitivo Mar de Tetis.
Durante o período Paleoceno ( 67 MA) assistiu-se a uma grande regressão marinha e a um aquecimento geral.

No final do  Eocemo, o Mediterrâneo era um grande lago  salgado, sujeito a forte evaporação e  quase a extinguir-se. Temperaturas elevadas criaram em toda a bacia mediterrânica um ambiente tropical e subtropical.
Até que há 53 milhões de anos uma forte actividade tectónica afastou as placas euroasiática e africana, rompendo-se o estreito de Gibraltar, e dando lugar ao enchimento do Mediterrâneo.

 Há uns 100.000 anos  iniciou-se um tempo de progressivo e forte arrefecimento que teve o seu auge na última glaciação de Wurm cerca de 20.000 anos aC. dando lugar também a grande e progressiva  transformação da vegetação e da fauna tropicais, empurradas para sul do Mediterrâneo.
Desta era tropical ficaram por cá algumas relíquias como a alfarrobeira, o loureiro, a palmeira do Algarve ( única palmeira da Europa), o macaco de Gibraltar e a flora da Macaronésica.
Na Macaronésia encontramos a floresta da Laurissilva dominada pelas lauráceas e outras espécies tropicais e subtropicais , que se espalham pela Madeira, Açores , Canárias e Cabo Verde.

 Durante a  era mais fria  desenvolveram-se entretanto florestas de coníferas de que restam na bacia mediterrânica  os géneros Cedrus, Pinus e Cupressus,   e mais tarde  foram dando lugar a espécies folhosas caducifólias  e  a seguir perenifólias e esclerófitas.

O clima foi acentuando as suas características de aridez e deu origem à formação de estepes em especial em todo o Mediterrâneo oriental e norte de África. Isto foi particularmente nítido entre 11000 e 10 000 aC, conduzindo ao início da desertificação em toda a região do  Sahara.
Mas foi a instalação da estepes que afinal possibilitou  a evolução  cultural dos seres humanos, com o início da agricultura.

Com a progressiva humanização, também ocorreu a progressiva destruição das florestas , já de si de lento crescimento, dando origem aos matagais mediterrânicos.
Formações de florestas e de matagais  estenderam-se por toda a orla do Mare Nostrum, e até nós, no barrocal algarvio e  na serra da Arrábida, chegou a aliança Oleo-Ceratonion, cujas espécies dominantes são o zambujeiro  e a  alfarrobeira.

O deserto no Sahara instalou-se definitivamente pelos 7000 aC e ainda se pode fotografar o último ramo verde do ultimo cipreste  vivo no Tassili N’Ager, com mais de 7000 anos ; os povos que abandonaram o Sahara em direcção ao vale do Nilo, gravaram numa laje uma vaca com uma lágrima nos olhos – sinal do desespero e sofrimento que aqueles povos sentiam ao ver morrer o gado com fome e sede e também da capacidade artística do ser humano desde os seus primórdios, ser humano que  sabe transmitir sentimentos através da arte. 
Nas estepes cresciam leguminosas e gramíneas que o homem descobriu  poderem ser comidas e poderem ser semeadas em maiores quantidades ; foi a primeira agricultura e o romper do Neolítico.

Começaram por ser semeadas algumas leguminosas como a lentilha e o grão de bico ( a Bíblia  fala no prato de lentilhas) e  diversos cereais selvagens como aveia, cevada e trigo… Dieta completada com carne de caprinos, ovinos, suínos e alguma caça . E peixe consumido em fresco ou conservado pelo sal.
Ainda hoje se consegue delimitar a área de distribuição dos trigos selvagens. O trigo espelta , por exemplo, é ainda hoje  apreciado pelos gourmets vegetarianos

A grande  espécie ícone do Mediterrâneo é a oliveira, que foi obtida a partir de variedades da oliveira brava. Por exemplo na Madeira  existe uma espécie de oliveira selvagem diferente do nosso zambujeiro (Olea europea  var.sylvestris), que é a Olea maderensis.
A cultura da oliveira é muito antiga quer para consumo do fruto quer como produtora de óleo, como atesta a descoberta em Jericó de  ânforas de azeite datadas de 6000 aC. Os povos do Mediterrâneo oriental espalharam depois as variedades cultivadas por toda a Europa do sul  e Norte de África-

 A intervenção nos ecossistemas naturais fez-se pelo pastoreio e pelo fogo, originando paisagens características e até dando lugar a adaptações de muitas plantas aos ciclos dos fogos.

A outra espécie que marca a imagem da região mediterrânica é a videira – a espécie Vitis vinifera ou videira europeia, susceptível de centenas de variedades ou castas obtidas com o seu cultivo, primeiro como planta produtora de frutos, depois pela sua utilização para  vinho.

A  composição das paisagens mediterrânicas do sul da Europa manteve-se dentro de parâmetros conhecidos ao longo dos séculos : campos de cultura cerealífera. compartimentação com árvores de fruta e certamente oliveiras, e vinhas em linhas pelas curvas de nível. As Geórgicas de Virgílio continuaram a ser ao longo da Idade Média o tratado de agronomia mais seguido.
 Nas povoações eram frequentes os hortos ou jardins murados.

Assim nasceu a trilogia alimentar mediterrânica, lançada por Braudel : pão, azeite, vinho. E  como complemento dos produtos agrícolas vieram a caça e a  criação de gado miúdo, além da pesca de espécies  marinhas muito valiosas em nutrientes.

A dieta mediterrânica é pois famosa pela qualidade dos alimentos que a compõem e tornou-se uma moda, se bem que muita gente fala dela sem saber exactamente de que está a falar.
O seu valor  como base da alimentação vem de os alimentos da serem  ricos em :
- anti-oxidantes que ajudam a prevenir a formação de radicais livres nas células ,  ácidos gordos ,Omega 3 e vitaminas C e E
-anti-coagulantes , como a  vitamina K existente nas   cerejas, uvas, mel, vinho e  frutos secos.

Para concluir digamos alguma coisa sobre qualidade de vida.
A qualidade de vida que foi um dos leit motive de Gonçalo Ribeiro Telles,   não depende apenas da alimentação, que é sem dúvida fundamental, mas também do estilo de vida, combatendo a vida sedentária que a cidade muitas vezes promove, mas que tem que ser contrariado pela qualidade da paisagem urbana, onde a Natureza tem de estar presente e a estrutura verde  é tão importante como as outras infraestruturas urbanas. Este foi e é um dos grande combates de Gonçalo Ribeiro Telles e de todos quantos o seguem !!

Percebemos assim ,creio eu,  que  a nossa famosa dieta mediterrânica foi resultado da evolução das condições ecológicas  desta grande região, berço de civilizações desde a mais remota Antiguidade , mas também devemos concluir que a cidade mediterrânica sempre contribuiu para completar os benefícios que os produtos da Natureza nos concedem.


quinta-feira, 3 de maio de 2018


 normalização = estupidificação
IKEA e similares

Não cito o nome IKEA por qualquer aversão especial à marca, é apenas por ser uma das maiores senão a maior das  grandes superfícies que vendem tudo para as nossas casas. Esta massificação da oferta dos bens que as pessoas mais consomem é a principal característica deste capitalismo desenfreado que nos inunda a vida e a transforma num rame-rame desconsolado. Num país com a nossa pequena dimensão, o número dessas grandes superfícies  significa que estamos a caminhar a passos largos para a completa normalização  da vida das sociedades tão cara aos mercados e  ao liberalismo que acaba por ser (já é) libertino.
Qualquer dia visitamos um amigo no Porto e encontramos as mesmas mobílias, os mesmos bibelots, as mesmas jarras, as mesmas almofadas que... temos na nossa casa e "por acaso" também em casa de uns primos que temos na Beira Alta.
Deixa de haver escolha, ou antes a escolha fica entre os modelos  e a estética que as grandes superfícies nos querem impingir; acabam os pequenos marceneiros, as pequenas fábricas de móveis a quem podíamos pedir uma modificação aqui  ou ali numa cadeira ou numa estante e termos os "nossos móveis", a nosso gosto.  Apenas acabarão por restar alguns fabricantes de produtos de alto gabarito para as classes possidónias que, essas sim, não deixarão de pagar seja o que for para terem coisas exclusivas. Agora para a malta, para o povão, as coisas fabricadas  em série serão baratuchas e  todas iguais  -" a minha  é marrron ,  ah! mas a minha é bordeau.... ". A  progressiva normalização da vida das sociedades é a estupidificação das pessoas. É a perda da diversidade cultural e da variabilidade de gostos que definem uma cultura.
Mas pior ainda do que esta normalização dos bens de casa, é que o mesmo acontece com os bens alimentares. Aqui estamos cada vez mais condenados a comprar as batatas ensacadas que as grandes superfícies nos vendem, sempre as mesmas duas ou tres qualidades, e as cebolas e as maçãs, e por aí fora; as nossas variedades desapareceram. E desaparecem também as nossas variedades de cereais e de leguminosas porque as grandes multinacionais do negócio alimentar  monopolizam a produção e o comércio das sementes e dos fertilizantes e pesticidas aos quais elas são adaptadas. É a perda grave da diversidade genética e biológica  - mas o que é que isso interessa aos executivos que estão à frente dos grandes grupos económicos e financeiros e aos "cientistas" e investigadores arregimentados por eles? Entra dinheiro e aumentam os lucros em cada ano, não é ? Isso é que importa.
È o maravilhoso mundo do Big Brother que Orwel  profetizou.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A espuma dos dias

1- Barrigas de aluguer -  Não sei se a minha posição é de direita ou de esquerda, mas se for de direita tanto me faz.
Eu não concebo que se transforme a mulher  numa máquina de parir e a maternidade num  negócio. Custa-me a entender como é que uma mulher cria um filho na barriga durante nove meses e depois se desprende dele como de um objecto que não lhe diz nada. Acho que é aviltante para a mulher e então se for a troco de dinheiro, como se de uma qualquer mercadoria se tratasse, ainda é mais pavoroso.
Custa-me a entender que as feministas possam alinhar com situações destas, em que mais uma vez e de uma forma cruel o corpo da mulher é pensado e usado como uma simples máquina de parir.
Há tanta criança para adoptar nas instituições, onde pais inférteis podem ir buscar uma criança da mais tenra idade e fazer dela o seu filho ou a sua filha, até podem escolher. Agora que uma mulher também aceite receber da barriga de outra um filho por encomenda  para criar como seu, deve ser o meu entendimento que é tacanho  e não entende.

2- Ainda os fogos florestais - Se o Governo escondeu durante seis meses o relatório da auditoria interna da Protecção Civil que demonstra o caos que se verificou nas primeiras horas do grande incêndio de Pedrógão, é revelador da irresponsabilidade que continua a lavrar em matéria de política florestal.  
Veja-se como deixou de se ligar o problema dos fogos florestais aos técnicos florestais e a um Serviço que devia existir que os enquadrasse, e praticamente só se fala da Administração Interna e do que ela faz ou não faz. Este Governo está a ir a um ponto de desnorte que é difícil de entender, entrega ás Autarquias o que seria a responsabilidade do Poder central ( com a evidente colaboração indispensável das Autarquias, claro), faz leis sobre leis para reformar  o quê ? É o ICNF que vai ficar como autoridade nacional florestal, sem guardas florestais, sem uma estrutura regional e local que enquadre as medidas a tomar? O ordenamento florestal vai fazer-se apenas por voluntarismo? Não é necessário um organismo que trabalhe em consonância com as Universidades?
Repito até à exaustão : dêem as voltas que quiserem dar com leis e mais leis,  sem uns Serviços Florestais vai continuar a ineficácia a que nos têm habituado os últimos Governos  e este em especial ( com pena o digo)!!
Há 50 anos, o Maio de Paris
Em Maio de 1968 o movimento iniciado em Paris e depois estendido a toda a França, renovou a Europa e através dela o Mundo.  
Última grande  manifestação do anarquismo, esse movimento revolucionário  de Maio de 68  abriu as sociedades para as exigências, entre outras coisas, da Ecologia e do Ambiente, fez mais pelo Tempo Moderno do  que qualquer outro evento político ou social. É proibido proibir ficará na História como o grito libertário das sociedades que não se querem sujeitas a nenhuma ordem excessiva, seja de que coloração for.
E mais, libertou a esquerda da sua conexão ao marxismo-leninismo e à ditadura do proletariado; como refere Rui Tavares num excelente artigo do "Publico", os anarquistas cometeram o erro de subestimar a social democracia e o que esta pode fazer pela libertação da sociedades sem descambar para a tutela de qualquer forma de ditadura.
A esquerda democrática adoptou as ideias principais do Maio 68, e como também diz o mesmo autor acima citado, "mal andará  a esquerda se se esquecer das suas raízes libertárias, ecológicas e cosmopolitas".
Em Portugal seria muito importante que o PS se lembrasse de que quer ser esquerda, e estando no Poder apoiado por outras esquerdas, deveria consagrar ao Ambiente e à Ecologia a importância que devem ter numa sociedade moderna. Ora o actual Governo limita-se a continuar a estrutura ministerial que o anterior Governo de direita criou, e permite  que o Instituto da Conservação da Natureza, peça fundamental de uma Politica de Ambiente coerente e eficaz, se tenha transformado no caos que é o ICNF e colocado no Ministério da Agricultura.
Maio de 68 parece ter-se esfumado na mente dos políticos do PS português.